Por Shneur Garb
Pode parecer estranho que eu esteja escrevendo uma carta tão minuciosa. Porém, percebi que é muito difícil para as pessoas falar a respeito disso, portanto decidi tomar a iniciativa e contar esta história.
Uma pessoa não vem a este mundo sem um propósito. Acreditamos que cada indivíduo está aqui para cumprir uma missão. Não quero meu Zalman lembrado como um bebê que viveu quatro semanas e morreu. Gostaria portanto de relatar umas poucas histórias sobre nossas experiências durante sua curta vida.

Meu filho, Zalman, nasceu perfeitamente saudável e assim permaneceu até seu Berit Milá (circuncisão). Dois dias depois, minha mulher notou que ele estava letárgico, não se alimentando normalmente. Sua cor parecia variar às vezes do róseo bebê para azulado. Não nos alarmamos porque ouvíramos dizer que recém-nascidos podem ficar azulados devido à má circulação. No dia seguinte pedimos a um médico que mora em nosso edifício para examiná-lo. Ele disse que o bebê parecia bem, que seu coração e pulmões estavam em ordem. Fomos também ao pediatra, que disse que caso os lábios voltassem a ficar azuis, deveríamos levá-lo ao pronto socorro, o que infelizmente aconteceu. Corremos com ele ao hospital. Quando a enfermeira olhou para meu filho, agarrou-o de nossos braços e apressadamente chamou vários médicos, que começaram a cuidar dele de imediato. Enquanto eles estavam tentando reanimá-lo, havia um casal muçulmano em uma sala, e uma mulher negra, cristã, na outra. Ao verem meu filho e olharem para nosso rosto, todos eles começaram a rezar por ele. Nesta altura percebi que meu filho era alguém especial.

Conseguiram estabilizá-lo e ele foi enviado à UTI pediátrica com um respirador. Ele apanhara um vírus chamado RSV, um tipo de pneumonia que atinge 50.000 bebês e crianças pequenas com pulmões e coração fracos a cada ano. Antes de entrar na sala de emergência naquela noite apavorante, jamais ouvíramos falar de RSV, assim como as pessoas de nossa família e amigos.

Enquanto ele estava na UTI, havia três outras crianças doentes lá. A princípio, disseram-nos que ele ficaria no respirador por alguns dias, para que pudesse recobrar as forças. Removeram o tubo várias vezes com sucesso e, por curto espaço de tempo, ele pôde respirar por si mesmo e até mesmo abriu os olhos. Um dia ele se alimentou, e eles ficaram esperançosos de que ele pudesse ser colocado num quarto normal. Infelizmente, devido à sua idade (duas semanas ao início de sua provação), ele simplesmente não tinha a força de continuar respirando por si, e voltou ao ponto onde estivera, dependendo do respirador.

O respirador, embora cumpra seus objetivos, também tem pontos negativos; um dos quais é que os pulmões, estando enfraquecidos, podem sofrer um colapso.Com o coração dolorido, sou forçado a dizer que foi isso que o levou ao outro mundo.

Alguém poderia achar estranho que eu esteja escrevendo uma carta tão detalhada. Mas percebi que é muito difícil para as pessoas falar sobre isso, e consolar-nos, portanto decidi adiantar-me e contar esta história. Uma pessoa não vem a este mundo sem um propósito. Acreditamos que cada indivíduo está aqui para cumprir uma missão. Não posso e não permitirei que meu Zalman seja lembrado como um bebê que viveu por quatro semanas e morreu. Gostaria portanto de contar algumas histórias sobre nossas experiências durante sua curta vida.

Convidei alguns de meus velhos amigos para o Berit Milá, e eles fizeram-me companhia no breve serviço que precedeu a circuncisão. Mais tarde, um destes amigos disse-me que não havia colocado tefilin por quatro anos, e outro disse que esta fora a primeira vez em sete anos! Já aos oito dias de vida meu filho estava aproximando os judeus de D'us! Enquanto minha mulher e eu estávamos no hospital, não tínhamos um local para sentar ou dormir perto de meu filho, porque a UTI é território proibido a todos os pais enquanto os médicos e enfermeiras fazem relatórios e rondas. Portanto dormimos no saguão, o que foi uma das piores coisas que tive de fazer. Mas como judeu e Lubavitcher, acredito firmemente que minha mulher e eu estávamos em algum tipo de missão Divina. Senti que nós, como judeus cumpridores da Torá, tínhamos de fazer todo o possível para ajudar as pessoas ao nosso redor. Senti que isso era o que D'us desejava de nós. No saguão, minha mulher e eu falamos com muitos pais, e os encorajamos, falando sobre como D'us tem Seus caminhos, que às vezes simplesmente não podemos compreender.

Levamos o desjejum para pessoas que não tinham ninguém da família para visitá-las. Minha mulher e eu rezamos ao lado dos leitos das crianças, judias ou não. Quando uma pessoa está nesta situação, sente a dor de todas as outras pessoas. Não havia fronteiras, raciais ou qualquer outra, e sentimo-nos como se todas as crianças fossem nossas também. O Rebe sempre disse para colocar uma caixinha de caridade, os livros da Torá, Salmos e Tanya, e o Salmo Shir Hamaalot perto da cama, o que eu fiz. Todas as noites eu rezava e dizia Tehilim (Salmos) ao lado do leito. Isto ajudou-me imensamente. O Rebe também ensinou: "Pense no bem e o bem acontecerá." Repeti estas palavras freqüentemente a todos os pais e a mim mesmo.

Às vezes eu tinha dificuldades em "pensar no bem." Mas mesmo quando meu filho estava passando pela pior parte de seu sofrimento, eu ficava sempre alegre após recitar Tehilim. Isso de certa forma chocava as pessoas do hospital. Na verdade, repreendi alguns dos médicos e enfermeiras por chegarem com expressões sérias e sombrias, ou parecendo muito angustiados. Disse-lhe: "Vocês não têm o direito de agir assim! Vocês são mensageiros de D'us, e devem dar esperanças de que tudo vai correr bem a todos os pais. Quero ver todos sorrindo a cada vez que entrarem neste quarto." Deste dia em diante, eles conseguiram sorrir sempre que nos avistavam. Uma médica procurou-me e disse que admirava nossa atitude positiva, e que ela sentia-se mais positiva também, apenas por ver nossa devoção.

Minha mulher é uma pessoa muito especial. Todas as noites, quando ela era uma garotinha, seus pais cantavam para ela uma canção de ninar iídiche. Todas as noites no hospital, ela se aproximava de todas as camas e cantava esta canção para as crianças. Enquanto ela cantava, os médicos e enfermeiras esperavam que terminasse antes de irem até os pacientes. Era como se ela mesma os estivesse curando. Toda vez que começo a sentir saudade de meu Zalman, murmuro esta canção para mim mesmo. Fiquei admirado pela sua força e sua habilidade de enxergar além dos tubos e monitores e cantar. São verdadeiramente milagrosas a fé e a esperança de uma mãe.

Meu filho, após mais de duas semanas, não pôde mais suportar e deixou este mundo. A princípio fiquei furioso: como isso podia nos acontecer? Mas quando os médicos vieram, isso mudou minha vida completamente. Estes médicos estavam de plantão, e sei que eles são treinados a não tornar-se muito apegados a um paciente. Mas quando nos disseram que nosso filho se fora, todos choravam. Abraçaram-me e me beijaram. Não me soltavam. Não quero dizer isso, mas é preciso. Quando me disseram que ele tinha falecido, eu lhes disse: "Olhem para mim e olhem para minha mulher. Quero que vocês se lembrem como estamos. Agora voltem lá e curem as outras crianças. Não quero que outro pai sofra como nós, que sinta esta dor."

A única maneira de conseguir passar por tudo isso foi devido ao modo que o hospital ficou quando ele morreu. Foi como se um trovão abalasse o edifício. Todos os médicos vieram, todas as enfermeiras, pais, os funcionários. Todos choraram e soluçavam o nome de meu filho enquanto abraçavam a nós e se uns aos outros. Senti como se meu filho tivesse feito algum tipo de missão Divina neste lugar horrível. Eu podia dizer pela reação deles que, embora ele jamais tivesse falado com estas pessoas, sua alma pura brilhava para trazer luz a este mundo.

Meu filho faleceu três horas antes de completar trinta dias de vida, portanto, segundo a lei judaica, não lhe demos um funeral completo e não houve shivá (sete dias de luto). Dizem que isso é uma bênção. Mas os Sábios eram inteligentes, e sabiam que um shivá dá às pessoas uma chance de visitar o enlutado e oferecer condolências. Como não houve shivá, eu proporcionei uma reunião chassídica onde várias pessoas falaram. Espero que isso ajude. Meu filho ajudou a aproximar as pessoas, pois muitos dizem Tehilim por ele em todo o mundo. Isso, naturalmente, é muito sensibilizante para mim, e é difícil continuar escrevendo, por isso vou terminando por aqui. As pessoas poderiam pensar que após todas as preces e após tudo pelo que passamos, nossa fé poderia estar estremecida. Mas aconteceu exatamente o contrário. Minha fé e engajamento estão ainda mais fortes do que antes.

Aprendi que a pessoa não deve tornar-se completamente envolvida com coisas materiais como carros, casas, dinheiro, etc. Até hoje tenho grande dificuldade em lidar com isso. Mas se a qualquer tempo durante esta provação D'us tivesse me falado: "Shneur, tirarei tudo que você possui, todo seu dinheiro, sua casa, tudo, em troca de mais uma hora de vida para seu filho," sem nenhuma hesitação eu teria aceitado.

De que outra forma posso lidar com isso? Ser cumpridor da Torá não é apenas uma questão de ação, ou modo de vestir, é aquilo que está no interior. Após testemunhar aquilo que meu filho fez em sua curta vida, não tenho perguntas a fazer ao Todo Poderoso. Como judeu e como chassid, é o sonho de um pai que seu filho possa viver como judeu, cercado de Torá e mitsvot. Isso é o que meu filho fez. Todas as manhãs nós lavamos suas mãos (netilat yadayim) e todas as noites ele recitou o Shemá. Portanto, viveu cada dia de sua vida como judeu e chassid. Conheço pessoas que esperam a vida toda pelo tipo de alegrias (nachas) que minha mulher e eu recebemos de nosso Zalman.

As pessoas continuam a nos perguntar: "O que podemos fazer por vocês?" Minha resposta é: "Faça como Zalman fez, e não se esqueça da sua vida plena de realizações. Viva cada dia como judeu, para si mesmo e para o mundo!"