Por Dovid Y. B. Kaufmann – L’Chaim
Você conhece alguém exigente em relação à comida? A maioria de nós conhece. Na verdade, é muito provável que tenhamos um deles em casa. Uma criança parece sobreviver apenas de macarrão com queijo, leite e flocos de milho, ou pizza, até chegar aos catorze anos. Nada de comer carne até chegar aos anos da adolescência. Um outro gosta de tudo temperado. Coloca molhos apimentados praticamente em tudo que come.

É claro que as meninas também podem ser complicadas na hora de comer. Uma filha tem aversão a ervilhas, ou tudo que se pareça com elas, como feijão verde. Outra come frutas somente se lhe forem servidas de maneira especial: a laranja deve estar descascada e todos os cordõezinhos brancos têm de ser removidos. A maçã precisa ser cortada em quatro partes. Eu próprio tenho uma ou duas aversões. Não gosto de cogumelos ou bananas.

Nossos gostos parecem ser quase genéticos, uma parte daquilo que somos, como cor do cabelo, altura, talento musical.

Mesmo aquelas pessoas com gostos ecléticos, que parecem dispostas a tentar de tudo, têm suas preferências. Já descobriram alimentos dos quais não gostam e receitas que jamais testariam (não importa o quanto sejam alteradas).

Por mais que tentemos, não podemos alterar nossos gostos básicos. Certo, podemos nos acostumar a certos alimentos – não me pergunte sobre os cogumelos (você deveria ver o que Maimônides diz a respeito deles). Mas quando se trata de gosto, não há o que dizer. Não é uma opção lógica. Na verdade, nem chega a ser uma opção. Gosto de sorvete de baunilha, meu irmão gosta de chocolate. Isso não pode ser explicado. Nossos gostos parecem ser quase genéticos, uma parte daquilo que somos, como cor do cabelo, altura, talento musical. Algo que D’us nos dá por intermédio de nossos pais.

O gosto expressa a essência
Há mais alguma coisa a respeito dos alimentos que comemos. Pais, cônjuges e amigos com freqüência tentam nos experimentar alguma coisa, apenas experimentar. Às vezes eles disfarçam a comida que odiamos, cortando-a em pedacinhos pequenos e "escondendo" no prato. Quando dizemos como aquilo é bom, eles declaram, triunfantes: "Aquele prato que você gostou tinha cogumelos, e você não sabia." A isso, a resposta só pode ser: "Se não posso sentir o gosto, e se não posso vê-lo, então na verdade não está ali."
Não há problema algum com a comida pela qual nossa aversão parece irracional e infundada. Simplesmente eu não gosto porque não gosto. Então os pais, cônjuge ou amigos bem intencionados tentam fazer com que "ampliemos nossos horizontes" – culinariamente falando. Mas e se nossa aversão não for uma simples questão de gosto? E se tivermos uma alergia alimentar? Alguém esconderia aquilo em nossa comida, alegando que só um pouquinho, melhoraria o sabor e não faria mal algum? Evidentemente que não.

A alma tem "papilas gustativas".
Eis aqui uma história real. Certa noite de sexta-feira alguns amigos nossos tinham um convidado para o Shabat. O convidado tinha explicado que era tremendamente alérgico a nozes. O menor traço poderia fazê-lo inchar e ter dificuldades com a respiração. A anfitriã tomou nota desse detalhe e certificou-se para que nada daquilo que fosse servido contivesse nozes. Exceto a sobremesa. Ela se esqueceu que o bolo tinha algumas nozes esmagadas. Não estavam visíveis; o sabor não era perceptível. A menos que se fosse alérgico a elas, você não saberia que estavam ali.

Antes que o convidado engolisse a primeira mordida, ele estava a caminho do hospital.
Felizmente, na maior parte do tempo nossa sensibilidade não se expressa de maneira tão dramática. Porém o gosto expressa a essência. Mesmo que não tenhamos uma violenta reação física, consideramos a comida "ruim" porque num determinado nível de nosso ser, somos alérgicos a ela. Simplesmente não é boa para nós.

Aquilo de que gostamos ou não, revela quem somos.

Isso é verdadeiro no sentido físico. E também espiritualmente.

A alma tem "papilas gustativas", por assim dizer. Tem suas preferências e aversões. Estas são as alergias alimentares da alma, espiritualmente falando.

Portanto, seja um gourmet exigente. Mantenha-se casher. É "apenas" por sua saúde. Sua saúde espiritual.