Por Yanki Tauber
Poderia parecer que o fazemos. Mesmo se conseguirmos evitar dizer inverdades completas, parece haver algo intrinsecamente desonesto no processo que chamamos de "educação."
Damos uma recompensa ao pequenino que se lembra de usar o toilete. Prometemos ao maiorzinho que compraremos para ele a tão sonhada bicicleta se trouxer bastantes notas altas no boletim. Ameaçamos suspender a mesada de nosso filho de doze anos que não quer arrumar seu próprio quarto. Lembramos ao nosso adolescente que se for apanhado bebendo e dirigindo, arrisca-se a ir para a cadeia.
Basicamente, estamos dizendo a nossos filhos que o motivo para usar o toilete é ganhar barras de chocolate, que a razão para aprender é um sonho cromado e plástico de duas rodas, que a ordem e o asseio são meios de ganhar algum dinheiro, e que é errado beber e dirigir porque pode-se acabar na prisão.
(Oh, sei que existem pais esclarecidos que renunciaram ao primitivo método do bastão e da cenoura para criar os filhos. Posso entreouvi-los em restaurantes explicando aos filhos de três anos, numa linguagem madura e adulta, por que não é socialmente aceitável usar os dedos para fazer uma bola com o purê de batatas. Admiro estes pais pela paciência e pela fé que têm em seus filhos. Porém suspeito que sua atitude tem suas limitações. Imagino que, se após duas horas de discussão madura, o céptico rebento ainda não estiver convencido, o esclarecido pai dirá mais ou menos o seguinte: "Bem, Junior, algum dia você entenderá por que deve esperar que a luz fique verde antes de atravessar a rua. Enquanto isso, você o fará porque seus pais, que já viveram o suficiente para entender o por quê, instruíram-no a assim fazer, e não deixarão você brincar com seus amigos a menos que obedeça estas instruções.")
Mas este é apenas um exemplo das mentiras que contamos a nossos filhos no esforço para educá-los. A cada etapa do caminho, o processo de "rebaixar" o conhecimento" e valores que desejamos transmitir ao nível deles, inevitavelmente envolve abreviação, imprecisão e simplificação.
Bem, diria alguém, pode ser verdade que grande parte da educação é um punhado de mentiras, mas é uma mentira necessária. Sem estas "mentiras", quando nosso filho tiver atingido a maturidade emocional e intelectual para compreender a verdade, ele ou ela estarão tão saturados de hábitos negativos que a verdade não lhes fará mais efeito. Conforme a criança amadurece, gradualmente superará seus motivos "infantis" e passará a valorizar o bem inerente na bondade, e o mal inerente no mal. E como esta valorização será consistente com seu comportamento aprendido, a partir daí fará a coisa certa pelo motivo correto.
O Rei Salomão, entretanto, discorda. Em seu Livro dos Provérbios (Mishlê), o mais sábio dos homens, decreta: "Eduque a criança de acordo com a maneira dela, pois quando crescer não se apartará dela" (Mishlê 22:6). Não há algo de errado com esta frase? "Eduque a criança de acordo com a maneira dela" - isso faz sentido, pois não temos opção a não ser tratar a criança em seu nível de maturidade; mas não estávamos dizendo que o centro da questão é que a criança deveria se afastar da " maneira dela" quando ficar mais velha?
Mas por que estamos falando sobre as "mentiras" que contamos aos nossos filhos? Por que não falamos sobre nós mesmos?
Alguma vez já fizemos alguma coisa, acreditamos em algo, entendemos alguma coisa sem descobrir cinco, dez ou vinte anos depois, que estávamos errados? Retrospectivamente, a crença não é sempre algo ingênuo, o entendimento algo falho, a ação apenas um pouquinho mal orientada? Pois como poderia ser de outra forma? Nós agora sabemos mais, entendemos mais, e somos mais vividos que éramos então. Agora enxergamos nuances às quais éramos cegos; somos sensíveis a realidades que antes estavam além do horizonte de nossa alma.
Estamos constantemente crescendo e evoluindo. Portanto, a única forma de viver nossa vida é "educando" a nós mesmos. Dizemo-nos: isso é certo, isso é errado. Por quê? Porque olhando para nossa realidade, avaliando-a pela sabedoria acumulada que nos foi transmitida, pesando as nuances nas balanças de nossa mente, coração e alma como agora os possuímos, chegamos à conclusão que "X" é bom e "Y" é ruim.
E quando ergue-se em nós uma voz para protestar: "Espere um pouco! Esta é sua opinião agora. Mas em dez anos, você saberá mais. Não percebe agora o quanto estava errado há dez anos? Você está vivendo uma mentira!" - respondemos àquela voz: "Não, minha vida não é uma mentira. É verdadeira, porque estou vivendo a verdade de meu máximo potencial. Sou um ser humano, algo em desenvolvimento. E meu Criador, que me imbuiu com o dom da vida, também ordenou-me ser bom. Isso significa que algo vivo e em desenvolvimento pode ser bom - ao atingir o limite máximo da bondade, é capaz de compreendê-la e torná-la real, durante todo o tempo em que reconhece que existe um bem maior e uma verdade mais verdadeira rumo àquilo que deve continuar a empenhar-se."
Esta é a "maneira" da qual a criança jamais deveria se apartar. Se chegar a um ponto no qual dizemos: "Minha vida até agora foi uma mentira, mas agora eu sei" - esta é a maior inverdade de todas. Ao contrário, devemos sempre dizer: "Sou um ser finito, porém sou também infinito, no sentido de que estou sempre amadurecendo. Reconhecer e cultivar a bondade nunca é uma mentira - é sempre verdadeiro, desde que não se afaste do verdadeiro potencial daquilo que sou agora, e desde que eu jamais deixe de atingir minha verdade máxima conforme eu cresço além da verdade de ontem."
Isso é o que ensinamos a nosso filho pequeno quando o recompensamos com um pedaço de chocolate por compartilhar o brinquedo com um amigo. No universo habitado por sua mente de dois anos, um quadradinho de doçura e delícia é o epítome do bem. Portanto nós o ensinamos que compartilhar é bom. A concepção dele é uma "falsa" concepção do bem? Não é mais falsa que nossa própria concepção do bem neste ponto em especial de nosso desenvolvimento. E ainda assim, a mente de dois anos de idade também sabe que existe um bem além do seu bem. Sabe que é "pequeno" e que papai e mamãe são "maiores" que ela, e ela deseja ser grande, também.
Se nossa mente de 25, 40 ou 80 anos também sabe disso, então fomos educados como o Rei Salomão diz que deveríamos ser educados. Fomos ensinados a nos relacionar com a bondade "à nossa maneira," e continuamos a seguir este caminho mesmo ao nos tornarmos mais velhos.