Nossa Torá sagrada é frequentemente muito ambígua. Um exemplo é o relato de Yaacov e Esav, os filhos gêmeos de Yitschac em nossa parashá.1 JYaacov é descrito como "um homem puro, morando em tendas" e Esav é "um homem que sabia caçar, um homem de batalhas.2 Isso é entendido3 como significando que Yaacov representa bondade, simplicidade e pureza, residindo nas tendas do estudo da Torá, enquanto Esav representa o mal. Ele é um caçador, um homem de batalha e conquista. No entanto, a Torá também acrescenta uma nota de ambiguidade, que desafia os estudiosos há milhares de anos: seu pai Yitschac preferia abertamente Esav à Yaacov.

Se Yaacov representa o bem e Esav representa o mal, como poderia o grande patriarca Yitschac preferir Esav?

A mesma ambiguidade é encontrada nos ensinamentos dos sábios. Eles nos dizem que, enquanto Esav era um feto no útero, ele lutava para sair sempre que sua mãe se aproximava de um templo idólatra. Além disso, eles dizem que, mesmo antes do nascimento dos bebês gêmeos, eles estavam lutando pelos dois mundos: o mundo vindouro, que era a escolha de Yaacov, e este mundo, que era o foco de Esav.4 No entanto, inversamente, o Zohar explica que quando a Torá diz “e os meninos cresceram”,5 refere-se a termos espirituais: a herança espiritual de seu avô Avraham começou a ser vista neles e, de fato, o próprio Avraham, que ainda estava vivo, foi ativo em educá-los.6

Esav era mau desde os primeiros meses de vida embrionária? Como poderia ser? Certamente, cada pessoa tem livre arbítrio. E se ele realmente era mau, o que dizer de seu crescimento espiritual, sua educação de seu avô Avraham e o fato de seu pai Yischac preferir ele a seu irmão?

O Rebe, que busca a perspectiva positiva em tudo, explica o seguinte:

  • A diferença real Yaacov e Esav era a preocupação de Yaacov de desenvolver ainda mais a bondade, contra o objetivo de Esav de transformar o mal em bom. Esav era o tipo de homem que luta contra o mal em todas as suas formas e - idealmente - o conquista. Ele tinha essa qualidade transformadora antes do nascimento: enquanto ainda estava no ventre, ele lutava para emergir quando sua mãe passava por um templo idólatra, porque ele queria mudá-lo de algo negativo para algo positivo. Da mesma forma, antes do nascimento, ele lutava para fazer com que este mundo revelasse a bondade, enquanto Yaacov sentia que o verdadeiro bem seria revelado principalmente no mundo vindouro. Por isso, os bebês ainda não nascidos lutaram dentro do ventre de sua mãe.
  • Então, quando jovens, enquanto Yaacov permanecia em uma tenda estudando Torá, Esav tornou-se um caçador, um homem do campo, porque queria conquistar a negatividade do “exterior” e transformá-la em bom.
  • Este é um caminho altamente louvável, e seu pai Yitschac percebeu que, em última análise, Esav tinha capacidade de alcançava mais do que o caminho de Yaacov. Infelizmente, embora Esav tenha começado de maneira positiva, ele acabou sucumbindo ao mal: em vez de transformá-lo em bem, ele o venceu e ele próprio se tornou mau. Consequentemente, sua transformação final para o bem deveria ficar com seu irmão Yaacov. Ao mesmo tempo, o próprio Yaacov mais tarde incorporou o caminho da transformação, como veremos na parashá da próxima semana.
  • Os caminhos originais de Yaacov e Esav fazem parte da Torá sagrada, e ambos são significativos para nós atualmente. Em nosso serviço pessoal a D'us e em nosso envolvimento com a sociedade, cada um de nós deve ser uma pessoa que habita nas “tendas da Torá”, subindo cada vez mais espiritualmente; e também um "homem do campo", buscando o aparentemente negativo e revelando seu potencial positivo. Combinando ambas as abordagens, podemos revelar a bondade suprema, mais elevada do mundo espiritual por vir: um mundo real, aqui embaixo, do bem absoluto.7