Após o Grande Dilúvio, o homem teve novamente de multiplicar e preencher a terra. Eles todos falavam um idioma e se entendiam muito bem. Decidiram construir uma torre que chegaria ao céu, para torná-los iguais a D'us, e ao mesmo tempo, tornar possível para eles ficarem juntos. Este símbolo de sua força divina, como eles pensavam, seria construído no vale da Terra de Shinear.

D'us decidiu destruir sua arrogância destruindo sua capacidade de entender um ao outro. E, portanto, confundiu as pessoas separando-as em setenta nações e tribos diferentes, cada qual com a própria linguagem, (daí vem o nome Babel, que significa “confusão”).

Quando isso aconteceu, o projeto da Torre teve de ser deixado de lado. Os vários grupos migraram em direções diferentes e se estabeleceram em todas as partes do mundo.

A Torre de Babel Explicada

Há muitas explicações fascinantes sobre o tema que são encontradas em comentários clássicos. Comecemos com o Talmud (Sanhedrin 109a) onde encontramos três tradições:
Na Escola de Rabi Shila foi ensinado que eles construíram a torre com a intenção de furar os céus com machados para drenar toda a água ali contida, tornando impossível a D'us trazer outro dilúvio, assim vetariam a Ele. (Talvez o que se quis dizer com isso é que eles tinham abraçado seu entendimento da ciência e suas obras a tal ponto que sentiam agora serem capazes de emparelharem com D'us em Seu campo – os céus.)

Rabi Yirmiya bar Elazar ensinou que na verdade havia três grupos: cada qual com seus próprios planos para a torre. Um grupo planejava subir na torre, para ficar em segurança, se viesse outro dilúvio. Um segundo grupo queria usá-la como um santuário para idolatria. Porém um terceiro grupo na verdade queria usá-la como uma plataforma a partir da qual enfrentariam D'us.

Rabi Natan, por outro lado, ensinava que todos eles tinham como objetivo servir a ídolos. O Targum Yerushalmi explica que a torre era para ser coroada pela forma de um homem segurando uma espada na mão – um ato de desafio contra o D'us a quem eles esperavam superar.

Um ensinamento interessante no Midrash é que eles tinham medo de que os céus iriam cair regularmente a cada 1656 anos como fizeram durante o dilúvio, o que ocorreu no ano 1656 a partir da Criação, e portanto eles decidiram construir um andaime para apoiá-lo.

O Maharal (Rabi Yehuda Lowe, rabino de Praga no 16º século) explica o Midrash e os ensinamentos da Escola de Rabi Shila como significando que eles viram o Dilúvio como uma ocorrência natural que ocorreu como resultado dos movimentos das esferas celestiais e seu posicionamento no céu na época do Dilúvio. O objetivo da torre era de alguma forma mudar aquilo que eles entendiam como um padrão natural do clima.

Rabi Obadiah Sforno (Séculos 15-16) explica que o plano deles de colocar um ídolo no topo da torre era tamanho que iria ganhar aclamação universal como o santuário mais alto do mundo e o maior deus, tornando-o o centro de adoração para todos – com o resultado de que aquele que governava aquela cidade governaria toda a humanidade.

Rabeinu Bachya (Séculos 13-14) dá muitas explicações. Num nível elementar, ele explica que o plano deles era construir um monumento que seria visto muitas milhas ao redor. Queriam se juntar, e decidiram que todos permaneceriam dentro da vista da torre e nunca se afastariam dela. Qualquer um que se afastasse longe demais da metrópole teria a torre para guiá-lo de volta. Este, porém, não era o plano de D'us, pois Ele nos criou para cuidar do mundo – todo ele – e torná-lo um local melhor.

Ele também sugere que eles poderiam na verdade estar criando o primeiro farol. Sabiam que D'us tinha prometido não trazer outro dilúvio, e temiam que Ele em vez disso punisse com fogo aqueles que se rebelassem. Esperavam que a torre serviria para afastar quaisquer tempestades elétricas que D'us enviasse para lá. (Note que Bachya viveu muitos séculos antes de Franklin.)

O Netziv (Rabi Naphtali Tzvi Yehuda Berlin, o Rosh Yeshivá da famosa Yeshivá Volozhin do século 19) tem uma visão fascinante e muito instrutiva sobre o plano deles. Explica que eles foram os primeiros engenheiros sociais –esperando criar uma sociedade utópica onde todos viveriam e pensariam como um. Temiam que se algumas pessoas criassem suas próprias colônias e cidades, iriam desenvolver suas próprias culturas e modos de vida únicos. Queriam que todos vivessem num ambiente controlado onde poderiam ter certeza de que todos permaneceriam homogêneos culturalmente. A torre serviu como uma base ao redor da qual todas as pessoas de sua colônia planejada se instalariam – ninguém deixando suas redondezas imediatas. O problema com o plano deles era que esse foi o primeiro passo para um estado tirânico onde nenhuma expressão individual seria tolerada, e D'us os partiu em nações distintas.

O Rebe certa vez explicou o episódio da seguinte forma: eles planejaram uma torre que seria um monumento para inspirar compromisso com sua meta em comum – sobrevivência. Queriam “fazer para nós mesmos um nome” – para garantir a continuidade da raça humana. Onde foi que eles erraram?

Exatamente aquele foi seu erro: eles viam a sobrevivência como um fim em si mesma. “Vamos fazer um nome para nós mesmos”, disseram eles, “vamos assegurar que haverá futuras gerações que lerão sobre nós em seus livros de história. Para eles, a vida em si era um ideal, a própria sobrevivência uma virtude.

Este foi o começo do fim. A natureza despreza um vácuo, e isto também é verdade sobre realidades espirituais: a menos que uma alma ou um causa esteja repleta de conteúdo positivo, a corrupção terminará entrando nela. Um nome vazio e santuário logo se torna uma torre de Babel.