Quando aceitei esse trabalho “Pergunte ao Rabino” no site Chabad.org, não percebi que deveria ser o advogado de defesa de D'us. Mas seja por qualquer razão, as pessoas intuitivamente veem a religião como uma zona de conforto, um conjunto de respostas a perguntas que deixarão tudo certo, para que elas possam seguir a vida dentro de um mundo estável, explicável, sabendo que algum rabino do outro lado do computador terá uma resposta para tudo que estiver dando errado.

Pergunta:

Já basta, Freeman. As pessoas estão desabrigadas, sem energia, famintas e exaustas. Perderam suas casas, seus pertences – todo seu futuro foi abruptamente, tirado delas com violência. E agora querem que você explique como, apesar de todas as aparências externas, o Furacão foi um ato de D'us, e não apenas um acidente maluco de alguma entidade indiferente chamada natureza.
Vamos, Freeman. A Torá deve ter uma resposta para isso...

Resposta:

De Quem é Este Jardim?

Uma das primeiras narrativas que ouvimos quando crianças na Escola Hebraica é como Adam e Eva foram expulsos do Jardim. Uma história simples, bonita, certo? Não, por favor, não. A história é profunda, muito, muito profunda. O Criador fez a terra. Ele gosta da terra que fez. É boa. Ele gosta dos animais de Adam, também. Ele é muito bom. Então Ele coloca Adam num lindo jardim com tâmaras, amêndoas e figos para colher, lindos rios nos quais se banhar, um sistema controlado de clima, cuidado gentilmente por uma bola de fogo quente e distante durante o dia, e um acessório semi-refletor não tão distante, à noite. Ele partiu Adam em dois, porque a solidão foi considerada “não boa”, e os abençoou para serem frutíferos e se multiplicar, como guardadores desse lindo jardim criado especialmente para eles.

As pessoas estão estão desabrigadas, sem energia, famintas e exaustas. E elas querem uma explicação.

Porém os animais de Adam não estão satisfeitos em cuidar do jardim de outros, no qual eles mandam e têm apenas de seguir as regras. Os animais de Adam têm essa necessidade de sentir seu próprio senso de ser, terem suas próprias vidas; de certa forma, serem como o Próprio Criador. E eles deixam o Criador saber disso, com apenas uma ação errada – e muita culpa.

Então o Criador diz: “Tudo bem, vocês querem suas próprias vidas, não é uma má ideia. Mas então precisarão também ter seu próprio mundo. Portanto darei a vocês um mundo selvagem e vocês terão a responsabilidade de cuidar dele, e cuidar de si mesmos dentro dele. E então vocês terão também algum senso do que é ser um Criador.”

E com isso as crias de Adam, que somos nós, são enviadas para fora do Jardim, “para trabalhar a terra da qual ele foi tirado.”

Ainda é uma terra muito controlada, de longe o mais suave dos planetas que observamos com qualquer telescópio. Um manto fino, translúcido, protege a vida dos fortes raios cósmicos, enquanto traz apenas a quantia certa de carbono para manter seu calor. Reveza aquele carbono, junto com nitrogênio e água nos ciclos perpétuos da vida, transformando o ar em organismos vivos que respiram e devolvem vida ao ar.

Sopram temperaturas moderadas, enquanto traz umidade dos mares, levando flocos gentis sobre as montanhas, e descem nas estações mais quentes para regar as planícies e os vales. Aquele artefato semi-refletor também trabalha gentilmente para prover um ciclo de ondas que se juntam nos mares e a terra seca. Magnífico, lindo, além da genialidade.

Porém o sistema nem sempre é tão amigável. E então chegam épocas em que ele desce cegamente contra nós, como se não existíssemos. Nós nos encontramos indefesos perante uma força muito maior que nós. De repente, somos pequenos. De repente entendemos que, ora, não fizemos este lugar. E também não o controlamos.

Porém, é nessas horas que devemos nos tornar Divinos. Porque estamos sendo forçados a assumir responsabilidade pelo nosso próprio mundo. Os cientistas ambientais irão discutir se isso tem a ver conosco alterando aquele delicado equilíbrio de carbono na atmosfera. Uma coisa é certa: temos de limpar a bagunça onde estão os animais de Adam, e temos de construir um mundo para que desastres como esse não ocorram tão facilmente.

Ser Divino

O que não direi é que se trata apenas da natureza, coisas como essa simplesmente acontecem. Como escreve Maimônides, pessoas que dizem “as coisas simplesmente acontecem” são pessoas cruéis. Por que cruéis? Porque estão tirando de outros a oportunidade de se elevarem, de comunidades inteiras terem a chance de se transformar. Entender que “coisas acontecem” porque há um Criador, e somos Suas criações com um desígnio. Estamos aqui para construir este mundo, e todos que nele estão, sabem o quanto ele é Divino.

Veja o que está acontecendo hoje nem países e cidades atingidas por furacões, terremotos Comunidades estão sendo forcadas a se reconstruírem. Nenhuma agência externa consegue fazer tudo isso sozinha. comunidades se unem para se reconstruirem em uma onda de solidariedade.

Estou sabendo de rabinos Chabad cujas casas e centros foram destruídos, e eles estão correndo para conseguir refeições para idosos, geradores para casas e procurando dezenas de voluntários para limpar a areia e o barro e entregar refeições. Mas como as pessoas que estão presas em suas casas ou apartamentos sem energia, celular ou internet vão conseguir saber disso? Às vezes é preciso alguém que sente seu destino ligado ao destino delas, para elevar seus espíritos e fazer com que reconstruam suas casas e suas vidas.

A Torá não é a defesa de D'us. São Suas instruções para nós, dizendo por que estamos aqui e o que devemos fazer exatamente agora.

Ei, quando você está sem telefone, eletricidade, ou meios de transporte, os mercados estão em ruínas ou totalmente vazios e não há lugar algum onde conseguir uma refeição, e você olha vê que tudop se foi aparece alguém oferecendo uma refeição casher, notícias do mundo exterior, e com quem você pode abrir o coração. A vida se torna novamente uma opção viável.

Você Está Confiante?

Isso responde à pergunta? Faz você se sentir mais confiante, porque tudo está explicado, incluindo furacões, tsunamis e o Criador do Universo?

Espero que não. Porque não deveria. A Torá não é a defesa de D'us. São Suas instruções para nós, dizendo por que estamos aqui e o que devemos fazer exatamente agora. Toda mitsvá que você cumpre, desde enrolar tefilin até acender velas antes do Shabat, está incluída nas instruções para consertar o mundo, agora mesmo.

Agora mesmo, a melhor coisa que você pode fazer é conseguir um caminhão de geradores, fios elétricos, sanduíches, dirigir até um daqueles bairros perto do mar com alguns amigos, e gritar: “Alguém precisa de ajuda? Alguém precisa de um gerador? Alguém precisa de ajuda para limpar a areia?” Então vá até lá e bata às portas.

Se você puder ajude os homens e mulheres em cena, membros daquelas comunidades, dos quais alguns perderam tudo, e apesar disso estão dedicados a colocar toda a comunidade de volta em pé.

É um ecossistema profundamente interligado no qual toda mitsvá da Torá tem seu lugar vital para curar o mundo. Não estamos aqui para explicar D'us. Estamos aqui para agir Divinamente. E para transformar este num mundo Divino.