Há uma semelhança misteriosa entre uma alma viva e um fogo furioso.
Ambos, ainda que domados, permanecem imprevisíveis. Ambos são insaciáveis. E ambos são levados a consumir sua própria existência - o fogo no esquecimento, a alma a retornar à sua origem Acima.

De modo que de um judeu que não é um fogo, dificilmente poderá se dizer que está vivo. O fogo é quem somos, e por que estamos aqui: Para incendiar o mundo.
Poderíamos ter sobrevivido aos últimos quatro milênios se não estivéssemos queimando como uma tocha dentro?

Fogo é o que somos e por que estamos aqui: para colocar o mundo em chamas.

Podemos sobreviver ao tsunami desta era de mudanças rápidas se não tivermos fogo intemporal e inextinguível? Podemos esperar que nossos filhos carreguem a tocha se eles mesmos não estiverem inflamados? Pode um judeu que não está em chamas ser tudo o que um judeu deve ser em qualquer tempo, em qualquer lugar? Um judeu pode mudar o mundo em vez de fugir dele, se não for alimentado por um incêndio violento?

Onde está o fogo?

Encontra-se dormente, dentro.
Como podemos incendiá-lo?
Não o acendemos pelas mãos ou pés. Se dissermos a um judeu o que um judeu deve fazer, o judeu pode fazê-lo. Mas o fogo permanecerá quieto, dentro. Não pode durar. Nada mais que brasas.

Nós não o acendemos da cabeça. Se damos razões judaicas para as coisas que um judeu faz, de modo que tudo faz sentido e tudo se encaixa perfeitamente e firmemente no lugar, ainda temos de ventilar as chamas do fogo.

No entanto, o mundo que nos rodeia continua a arder com mil fogos ardentes, cada um clamando em sua própria voz maníaca, mais vigorosa, mais impulsionada do que qualquer sentido ou razão. Se o judeu não encontrar esse fogo interior, outro fogo tomará seu lugar.

Nós não o inflamamos do coração. Se inspirarmos o judeu com histórias e por exemplo, com nossa história e nosso orgulho, com canções e letras que pegam a alma e inspiram; Mesmo se falarmos com aquelas palavras que os sábios chamam de "palavras que conquistam o coração" - nós conquistamos mas não temos poderes. Temos aquecido o judeu, mas ainda temos de incendiar os judeus.
Devemos inflamá-lo de dentro.

Porque mesmo quando o judeu se encontra como um toco de madeira no pântano mais frio e úmido, mesmo no meio da mais profunda lama, um judeu pode explodir em chamas.

Porque no âmago do judeu, esperando para ser acesa, encontra-se uma faísca secreta escondida. E nas profundezas da Torá, aguardando sua libertação, há uma sabedoria secreta escondida.

Segredos sussurram a segredos e despertam um ao outro de seu sono. Uma centelha dentro ressoa, e clama: "Sim, essas são as palavras da minha alma! Essas são as palavras que eu sempre lutei para pronunciar, mas não conseguia articular! Essas são as palavras que falam quem realmente sou!"

O judeu explode em chamas.

O Paraíso e a Mula

A Torá, dizem os sábios, tem sua própria taxonomia. Consiste em quatro camadas.
O significado simples da Torá é chamado p'shat. Isto é o que todos devem saber, para que um judeu faça o que um judeu deve fazer.

Depois há explicações e significados da Torá, nem sempre explicados claramente. Estes significados são acessados através de remez, ou seja, sugestões ou alusões.
Então há ainda significados mais profundos para os quais se deve procurar, significados que inspiram o coração e elevam os espíritos. Esta camada é chamada drush.

Além de todos eles está a camada de sod - os segredos da Torá. Verdadeiros segredos - porque, mesmo que fossem anunciados a todos, permaneceriam secretos. Eles estão fechados e trancados, acessíveis somente para aqueles cuja alma já toca a mensagem que eles carregam.

Juntos, a primeira letra de cada um destes níveis especifica PRDS פרדס - o equivalente hebraico para o paraíso, pardes, um pomar de belas árvores, frutas suculentas e pássaros cantantes. Juntos, você tem uma Torá completa.

Mas deixe de fora a última letra a letra de sod (segredos), e você tem PRD פרד. Em hebraico, que é uma mula, um cruzamento entre um cavalo e um burro, um animal que é incapaz de produzir prole.

Certamente, os segredos da Torá por si só são insuficientes. Uma chama sem óleo e um pavio é uma miragem fugaz.

Mas sem esses segredos, a alma não pode progenerar. O judeu pode ser um bom judeu. Um judeu temente. Um judeu com muitas boas ações e muita Torá.

 Mas esse judeu pode incendiar o mundo? Esse judeu pode incendiar a próxima geração? Esse judeu pode aguentar as chamas sobre ele, esperando para consumi-lo?
Para isso, deve haver segredos. O transcendente. O misterioso e inacessível. Segredos que falam ao núcleo transcendente, misterioso e impenetrável da alma.

A História do Fogo e Judeus

Como podemos ensinar o fogo para judeus?

Durante milhares de anos, os segredos eram propriedade de poucos eleitos. Havia um Abraão, um Yischac, um Yaacov e um Moshê. Eles estavam em chamas e todos se mantiveram acessos pela presença deles.

Haviam profetas que se assentavam nas colinas da Judéia e nas cavernas do Neguev, e contemplavam o divino ensinando segredos a seus iniciantes. Haviam sábios seguindo-os, como Rabi Yonatan ben Uziel que queimou com tal fogo; enquanto aprendia o que diziam, um pássaro  que a sua cabeça e teria sido torrados no ar. Rabi Akiva, que entrou no Paraíso e voltou, enquanto seus companheiros foram consumidos na luz.

Rabi Shimon bar Yochai que, em seus últimos anos, foi cercado por um fogo de modo que somente seus discípulos mais próximos pudessem se aproximar dele. No dia de seu falecimento, toda a sua casa estava cercada de fogo, enquanto ensinava a mais profunda sabedoria do conhecimento oculto. É por isso que acendemos fogueiras em Lag BaOmer, o aniversário de sua morte. Ansiamos por seu fogo.

Muito mais tarde foram os cabalistas de Tzfat, cujos ensinamentos ardentes revigoraram uma geração cansada e quebrada pela calamidade da expulsão espanhola. Entre eles estava o Ari Hakadosh - "o Leão Sagrado" - Rabi Isaac Luria, cujos ensinamentos de tikun, conserto espiritual, se espalharam como fogo da Terra Santa em toda a Europa e terras árabes.

No entanto, todos os segredos eram apenas para os estudiosos, para aqueles cuja alma estava completa e preparada para conter a luz. Vazados em outros lugares, a profundidade da rica metáfora em que estavam envoltos estava perdida. Eles eram fogo nas mãos daqueles que não sabiam como aproveitar o fogo. O fogo, quando aproveitado, fornece grande poder. Desconectado, consumirá e levará uma alma longe desse mundo.

Até o quinto século do sexto milênio do calendário hebraico - o alvorecer da véspera do Shabat cósmico, de acordo com a tradição talmúdica - Rabi Israel Baal Shem Tov começou a aplicar os segredos mais íntimos da Torá à vida do judeu comum .

O Baal Shem Tov conseguiu extrar a essência pura do fogo, e aquela esência é a propriedade de toda alma.

O Baal Shem Tov e seus discípulos encontraram as palavras, as histórias, pacote necessário para transportar os mais profundos segredos para fora e para dentro de cada coração. Eles foram capazes de aproveitar o fogo porque o Baal Shem Tov tinha extraído a sua própria essência, e essa essência era propriedade de cada alma.
Judeus comuns e simples começaram a dançar e cantar com amor e alegria pelo seu D’us, pela sua Torá e pelo seu amor um pelo outro. As almas foram incendiadas.

O Segredo do Baal Shem Tov

Qual era o segredo do Baal Shem Tov?
Ele não contou ao judeu sobre a recompensa  da alma no céu.
Ele não explicou como agir como judeu seria benéfico para todos.
Ele não provou a existência de D’us, nem a unidade de D’us, nem a autenticidade da Torá ou da tradição judaica.

O Baal Shem Tov simplesmente disse ao judeu, "Onde quer que você esteja disperso, em tudo o que você vê e ouve, ali se encontra D’us".

Ele falou de um amor que transcende todos os amores, até mesmo o amor de um pai por seu único filho nascido em anos tardios, mais profundo ainda, de modo que não poderia haver fissura que pudesse quebrar este amor, nenhum abismo para onde escapar, nenhuma escuridão em que esse amor não poderia brilhar…
O Baal Shem Tov disse ao judeu: "Ouve, ó Israel! Este é o teu D’us! Você e seu D’us são um! "

E o judeu respondeu: "Sim. Esse é o amor que eu conheço dentro do meu coração. Esse é o D’us que respira dentro de mim. Estes são os segredos da minha alma falando comigo. "

Uma vez que seus segredos tinham encontrado a saída, a alma estava aberta para ouvir mais e ainda mais. As chamas corriam pelas veias dos judeus, em cada palavra de Torá estudada, em cada prece proferida, em cada mitsvá colocada em prática e em cada interação com outra alma, em tudo o judeu encontrava a luz infinita, o  eterno Fogo divino.

Hoje, não há outra alternativa. Todo judeu deve ser incendiado. Devemos encontrar a centelha dentro até mesmo de um coração frio como pedra molhada. Do mesmo modo que um reator nuclear aproveita a energia do átomo e a coloca em bom uso, devemos incendiar o poder infinito da alma e direcioná-la ao bem infinito.

Dessa forma, iremos acender o mundo inteiro para que ele saiba que ele também é um com D’us.