Por Rabino YY Jacobson

Um pote de margarina em Bergen Belsen

Na parashá Mikêts lemos uma história forte. O Faraó, rei do Egito, teve dois sonhos. No primeiro, o faraó se vê sobre o Rio Nilo. “E veja, saíram do rio sete vacas, bonitas e gordas e se alimentavam da grama. E veja, outras sete vacas saíram do rio depois delas, feias e magras e ficaram ao lado das outras vacas à margem do rio. E as vacas feias e magras comeram as sete vacas bonitas e gordas 1".

No segundo sonho, o faraó vê sete espigas pequenas engolirem sete espigas grandes.
Nenhum sábio do Egito pôde oferecer ao faraó uma interpretação satisfatória de seus sonhos. Então, o “jovem escravo hebreu 2”, Yossef, é chamado da sua masmorra ao palácio. Yossef interpreta os sonhos dizendo que sete anos de fartura, simbolizados pelas vacas gordas e a espiga grande, serão seguidos por sete anos de fome, refletidos pelas vacas magras e as espigas pequenas. Os sete anos de fome serão tão poderosos que vão “engolir” e apagar qualquer traço dos anos de fartura.

Yossef então aconselha o faraó sobre como lidar com a crise pendente 3: “O faraó deve procurar um homem com visão e sabedoria e colocá-lo no governo do Egito. Um sistema de racionamento terá de ser instalado no Egito durante os sete anos de fartura,: explica Yossef, “no qual o grão será armazenado para os sete anos vindouros de escassez.”

Se você está investindo seu tempo e energia em coisas que se provarão fúteis quando o clima de sua vida mudar e não o sustentarão quando os desafios chegarem, você deveria querer reexaminar suas escolhas atuais. Por que esperar pelo dia em que você terá de dizer: “Se pelo menos eu tivesse entendido…”

O faraó fica abalado pela visão de Yossef. “Pode existir uma outra pessoa que tenha em si o espírito de D'us como este homem tem?” O faraó pergunta aos seus conselheiros. “Não há ninguém tão compreensivo e sábio como você,” diz ele a Yossef, “Você vai governar minha casa, e segundo sua palavra meu povo será governado; somente pelo trono eu superarei você.”
Yossef então é nomeado Primeiro Ministro do Egito. O resto é história.

Três Perguntas

Os comentaristas bíblicos se engalfinham com as três perguntas mais importantes sobre essa história notável 4.

  1. É difícil e entender como após sua interpretação dos sonhos, Yossef seguiu dando ao faraó conselhos sobre como lidar com a escassez que estava vindo. Como um escravo recém-libertado não tem medo de oferecer ao rei do Egito, o monarca que governava uma superpotência, conselhos não solicitados? O faraó chamou Yossef da masmorra para interpretar seus sonhos, não para se tornar conselheiro do rei! Tamanha chutspá (ousadia) poderia até lhe custar a vida.

  2. É óbvio pela narrativa, que o faraó estava realmente impressionado pela solução de Yossef ao problema. Mas não é preciso ser um cientista espacial para sugerir que se você tem sete anos de fartura seguidos por sete anos de fome, deveria estocar comida durante a época de fartura para a época de fome. Qual é a genialidade no conselho de Yossef?

  3. O faraó também estava impressionado pela interpretação de Yossef sobre os sonhos, que nenhum dos seus sábios pôde conceber. Mas a interpretação de Yossef parece simples e óbvia: Quando as vacas são gordas? Quando há muita comida. Quando são magras? Quando não há comida. Quando o grão é farto? Quando há uma colheita plena. Quando o grão é pequeno? Durante uma época de escassez. Então por que o faraó ficou surpreso por Yossef ler os seus sonhos? E por que ninguém mais pôde conceber a mesma interpretação?

Unindo as Vacas

Durante um discurso de Shabat Mikêts (e Chanucá) em 1973, o Rebe apresentou a seguinte explicação: 5

Os especialistas em sonhos no Egito na verdade entenderam a interpretação de Yossef sobre os sonhos do faraó, ou seja, que sete anos de fome seguiriam os sete anos de fartura. Porém eles não consideraram essa interpretação porque não citava um importante detalhe do sonho.

No primeiro sonho do faraó, ele viu como as sete vacas feias e magras que chegaram após as sete vacas bonitas “ficaram perto das outras vacas [magras] à beira do rio 6.” Em outras palavras, houve um momento durante o qual rebanhos de vacas coexistiram simultaneamente, e apenas depois as vacas magras começaram a engolir as vacas gordas.

Foi esse detalhe do sonho que fez com que os sábios do Egito rejeitassem a interpretação que Yossef mais tarde iria oferecer ao faraó e os obrigou a apresentar todos os tipos de explicações fantasiosas 7 Pois como é possível que fartura e escassez possam coexistir? Ou você tem vacas gordas ou tem vacas magras, mas não pode ter as duas juntas! Os sete anos de fome não podem estar presentes durante os sete anos de fartura. Ou você tem muita comida, ou não tem nenhuma. Mas não pode estar saciado e faminto ao mesmo tempo.

Foi aí que o impressionante brilho de Yossef surgiu. Quando ele foi dizer ao faraó como se preparar para a escassez que viria, ele não estava oferecendo aviso não solicitado sobre como governar o pais; mas sim, o conselho era parte da interpretação do sonho.

Yossef entendeu que a coexistência de dois tipos de vacas continha a solução para a escassez que se aproximava: durante os anos de fartura o Egito deveria “viver” também com os anos de escassez, como se já estivessem presentes. Até mesmo enquanto apreciava a abundância dos anos de fartura, o Egito deve sentir na imaginação a realidade da fome que viria, e a cada dia deveria estocar comida para isso. As sete vacas magras deveriam estar presentes e vivas na mente das pessoas e em seu comportamento durante os sete anos de vacas gordas.
De modo contrário, se esse sistema fosse implementado no Egito durante os anos de escassez a nação continuaria desfrutando da abundância dos anos de fartura. As sete vacas gordas estariam muito presentes e vivas mesmo durante a época das sete vacas magras.

Foi isso que impressionou tão profundamente o faraó sobre a interpretação de Yossef. Para começo de conversa, o faraó ficou atônito pela engenhosa narrativa de Yossef sobre um detalhe do sonho que tinha se evadido de todos os sábios do Egito.
Porém o que mais o empolgou foi a demonstração de Yossef do fato de que os sonhos do faraó não apenas continham uma previsão dos futuros eventos, como também ofereciam instruções sobre como lidar com aqueles eventos. Os sonhos não apenas mostravam problemas, como também ofereciam soluções 8

Você precisa de D'us? Você tem um verdadeiro amigo?

A sabedoria de Yossef apresentada ao faraó se torna bastante clara quando refletimos sobre a mensagem espiritual por trás da história. Pois como já notamos inúmeras vezes, as histórias da Torá descrevem não apenas eventos físicos que ocorreram num determinado ponto da história, como também detalham contos metafísicos e eternos ocorrendo continuamente dentro do coração humano.

Todos nós passamos por ciclos de fartura e ciclos de escassez em nossa vida. Há tempos em que as coisas estão indo muito bem: estamos saudáveis, bem sucedidos e confortáveis. Muitas vezes durante esses tempos deixamos de investir tempo e energia para cultivar intimidade emocional genuína com nosso cônjuge, desenvolver relacionamentos verdadeiros com amigos e criar um vinculo sincero com D'us. Sentimo-nos auto-suficientes e não precisamos de ninguém em nossa vida.

Porém quando chega um tempo de escassez quando irrompe uma crise grave (o céu não o permita) em nossa vida, de repente sentimos necessidade de ir além de nós mesmos e nos conectar com nossos entes queridos e com D'us.

Mas não sabemos como. Porque quando não nutrimos nossos relacionamentos e nossa espiritualidade durante os anos de fartura, quando os anos de escassez nos confrontam, não temos as ferramentas que precisamos tão desesperadamente para sobreviver à crise.

Essa é a essência da sabedoria de Yossef: você nunca deve separar os anos de fartura dos anos de fome. Quando você passa por fartura, não deixe que isso cegue sua visão e o deixe insensível sobre aquilo que é realmente importante na vida.

As prioridades que você cultiva durante seus”tempos bons” deveriam ser do tipo que sustentam você durante os tempos de desafio também 9Se você está investindo seu tempo e energia em coisas que se provarão fúteis quando o clima de sua vida mudar e não o sustentarão quando os desafios chegarem, você deveria querer reexaminar suas escolhas atuais. Por que esperar pelo dia em que você terá de dizer: “Se pelo menos eu tivesse entendido…”

Um pote de margarina

Na conclusão de cada dia com 16 horas de trabalho no inferno chamado Bergen-Belsen, o comandante do bloco gostava de se divertir um pouco com os judeus.
A refeição ao final do dia consistia de pão velho seco, sopa aguada imunda e um pote de algo semelhante a margarina feito com gordura vegetal.

A margarina era tirada de um vaso grande, e após a refeição ser distribuída e o vaso ficar vazio, o comandante permitia que os prisioneiros famintos saltassem dentro do vaso vazio e lambessem a margarina restante das paredes do vaso. A visão de judeus famintos lambendo restinhos de margarina fornecia entretenimento noturno par ao comandante e seus guardas.

Um prisioneiro, porém, se recusava a fazer parte do show do comandante. Embora como todos os outros ele fosse um sombra faminta de um homem aparentando muito mais idade do que tinha, ele nunca se permitiu humilhar por uma lambida de margarina. Os outros prisioneiros o chamavam de Eliajh. De uma maneira indizível, os outros recebiam força da recusa de Elijahem juntar-se ao frenesi.

Então uma noite, aconteceu algo que pareceu abalar qualquer força que restasse nos prisioneiros. Elijah cedeu. Num instante ele se atirou no vaso gorduroso e furiosamente rolou como uma fera enlouquecida. E como o comandante se divertiu. Foi uma risada de satânica satisfação. O ultimo dos judeus tinha se rendido.

Mais tarde, depois que os guardas saíram e os judeus estavam em suas barracas, Elijah tirou a camisa e começou a rasgá-la em pedaços. Os outros olharam em silêncio. Elijah tinha enlouquecido?

Ele estudava a camisa por um instante, examinando-a cuidadosamente, como se estivesse procurando algum local exato, e então rasgava aquele pedaço. Olhava para cima. Seus olhos estavam em fogo.

“Vocês sabem que noite é hoje?” perguntou ele. “Hoje é a primeira noite de Chanucá.”

Elijah estudou novamente a camisa,e encontrando outro pedaço para rasgar. Um ponto que ele tinha propositalmente saturado com gordura ao rolar na margarina.
Naquela noite Elijah liderou os outros no acendimento das chamas de Chanucá. Os pavios vinham dos pedaços da camisa, e os resquícios de margarina que Elijah tinha tirado furiosamente eram o azeite.

A luz de Elijah continua a brilhar até hoje. Em seu mundo, os tempos de fartura e de fome jamais estiveram desconectados.