O Ladrão

Um viajante certa vez foi parado por um ladrão na estrada, que exigiu a bolsa com dinheiro sob a mira de um revólver. O viajante gritou: “Não atire! Eu lhe dou o dinheiro numa boa! Mas quero lhe pedir um favor. Se eu chegar em casa de mãos vazias, minha mulher jamais vai acreditar que fui roubado, e me acusará de ter jogado dinheiro fora com jogo ou bebida, e me deixará na rua sem piedade. Por favor, atire diversas vezes contra o meu chapéu, assim posso provar a ela que fui assaltado.”

O ladrão não viu motivos para não concordar. Pegou a bolsa com o dinheiro e atirou diversas vezes contra o chapéu do homem.

“Muito obrigado,” disse o viajante. “Mas você não conhece minha mulher. Ela dirá que furei o chapéu e que esses de forma alguma são buracos de bala. Aqui, pegue meu casaco e atire várias vezes à queima-roupa, deixando as marcas de pólvora. Isso com certeza a convencerá.”

Mais uma vez o ladrão concordou e atirou diversas vezes no casaco. Quando o viajante viu que que as balas tinham sido todas usadas, ele prontamente atacou o ladrão, derrubou o ladrão, recuperou a bolsa com o dinheiro e fugiu.

Essa história, narrada por Rabino Nachman de Breslov, transmite o padrão trágico da vida de muitas pessoas. Cada um de nós tem um ladrão, ou uma inclinação negativa, dentro de nós. O ladrão deseja continuamente nos roubar de nossa bondade e inocência interiores. Porém, muitos descobrem a disposição e o poder de lutar contra nosso ladrão somente depois que ele atirou todas as balas contra nós. Somente depois de permitir que nossos vícios e impulsos perniciosos disparem todas suas balas e consumam inteiramente as nossas vidas, quando percebemos que eles são vãos e vazios, estamos em posição de dominar o ladrão e embarcar no caminho da recuperação.

As Dez Pragas

As dez famosas pragas que estão registradas no Livro de Shemot, lidas durante as atuais semanas, não devem ser vistas meramente como um conjunto de ocorrências sobrenaturais que assolaram o império egípcio há 3.300 anos. A Torá é um projeto para a vida, um manual para o desenvolvimento da raça humana, não apenas um registro de histórias antigas. Os episódios descritos na Torá representam histórias eternas, espirituais, ocorrendo continuamente no coração de todo homem.

Como então devemos aplicar a remota história das dez pragas à nossa vida pessoal?

Anatomia da alma

A Cabalá ensina que toda alma humana é formada por dez tijolos, dez características que formam sua personalidade interior. As primeiras três formam a identidade inconsciente da alma e seus poderes cognitivos. As sete finais constituem a parte emocional da alma. Essas dez características, também conhecidas como “as dez sefirot”, dez luzes ou dez pontos de energia, são mostradas na Cabalá da seguinte maneira:

Nome hebraico - Tradução - Praga
Keter - superconsciente - morte dos primogênitos
Chochmá - concepção - escuridão
Biná - inteligência - gafanhotos
Chessed - amor - granizo
Gevurah - rejeição - furúnculos
Tiferet - compaixão - epidemia
Netzach - ambição - feras
Hod - submissão - piolhos
Yesod - conexão - sapos
Malchut - confiança - sangue

Cada um de nós recebeu uma opção na vida. Podemos refinar e melhorar esses dez atributos para que eles expressem nossa luz Divina interior, ou podemos perverter e corrompê-los, usando-os de maneiras imorais e doentias.

O antigo Egito, com seu programa demoníaco de eliminar sistematicamente um povo inteiro, os hebreus, da face da terra, preferiram embarcar no segundo caminho. A nação egípcia original perverteu todos os dez atributos de sua alma. A energia negativa engendrada pela perversão de tantos espíritos humanos retornaram ao Egito na forma das dez pragas que assolaram o país.

Em nossas vidas pessoais, o Egito reflete um estado de disfunção psicológica, na qual um ou muitos atributos da alma tornam-se distorcidos e defeituosos, atrapalhando a capacidade humana de ser verdadeiro – concretização e realizações. Isso é indicado no nome hebraico para Egito, Mitzrayim, que pode ser traduzido como “inibições” ou “restrições”. Quando deixamos de enfrentar os próprios demônios, nossos atributos pervertidos podem voltar-se para nós, também, na forma de pragas psicológicas.

As Dez Pragas, portanto, correspondem às Dez Sefirot (de baixo para cima, como na tabela).

Sangue – Confiança Destrutiva

A primeira praga, na qual o Rio Nilo se transformou em sangue, era um símbolo físico da confiança destrutiva que se tornou a característica do Egito, tanto do ponto de vista geográfico quanto psicológico. Em vez de uma confiança construtiva que edifica o caráter espiritual e promove a sensibilidade para com o próximo, a confiança “egípcia” fomenta o domínio e a exploração. Quando a percepção de confiança da pessoa se torna realmente corrupta, isso pode levar a gerar rios de sangue, como os egípcios de fato fizeram.

O Rio Nilo incorporava a fonte de confiança e segurança egípcias. Como no Egito cai pouca chuva, a agricultura e sustento do país dependem completamente do rio. Portanto, os antigos egípcios endeusaram o Nilo. Suas águas transformadas em sangue refletem o estado perverso de uma nação que torna sua confiança em sangue, usando sua posição de força e poder para assassinar e abater incontáveis seres humanos inocentes.

Sapos – Intimidade Fria

A segunda praga, na qual enxames de sapos inundaram o Egito, simboliza a intimidade fria e desapaixonada que caracteriza um homem vivendo num Egito psicológico.

Sapos são frios – anfíbios de sangue frio que se desenvolvem em climas frios. As fêmeas do sapo geralmente depositam os ovos na água, onde chocam dentro de buracos frios e úmidos. Devido a isso, e ao fato de que os ovos depositados dessa maneira não recebem proteção dos pais, na Cabalá os sapos refletem o estado emocional da apatia, desapego e frieza.

Essa condição rouba um ser humano da capacidade de vivenciar genuína intimidade emocional com qualquer outra pessoa – cônjuge, filho ou amigo. A personalidade “sapo” é a pessoa que, quando perguntada “Qual é a diferença entre ignorância e apatia?” responde: “Não sei e não quero saber.”

Piolhos – Submissão Doentia

A terceira praga, na qual a poeira do Egito se transformou em piolhos, reflete os sintomas da submissão doentia.

O atributo da submissão, como todos os atributos da alma, pode ser tanto produtivo quanto destrutivo. Permanecer para sempre como um humilde estudante das lições da vida é uma das mais nobres qualidades que um indivíduo pode ter. A capacidade de entregar o próprio ego a uma verdade mais elevada é o alicerce de todo o crescimento espiritual, assim como a capacidade de confessar um erro ou uma falha. “Que minha alma seja como o pó,” é uma prece judaica diária, expressando nosso desejo de que sejamos humildes na presença dos mistérios da vida. Essa é humildade sadia e submissão.

A submissão destrutiva “egípcia” é uma humildade que esmaga o espírito da pessoa e amortece seu entusiasmo pela vida. Nesse tipo de submissão, no qual alguém pensa sobre si mesmo como uma criatura sem importância, a percepção do ser como poeira inútil se desenvolve em piolhos que desmoralizam e rebaixam a vida da pessoa. Como os piolhos, esse tipo de humildade suga o sangue da pessoa, privando-a de sua vitalidade e fluxo de energia.

O sagrado Rabi Aaron de Karlin colocava nessas palavras: “Depressão não é um pecado; porém, aquilo que a depressão faz, nenhum pecado pode fazer.”

Feras – Ambição Selvagem

A quarta praga, na qual um bando de feras selvagens atacou o Egito, é o símbolo físico da ambição doentia.

A ambição é um dos maiores presentes na vida. É o motor que impulsiona o ser humano a atingir a grandeza e fazer uma diferença no mundo, Porém, se não refinarmos essa qualidade, nossas ambições podem nos transformar em “feras selvagens” que esmagam e destroem as pessoas que virmos no caminho da realização de nossos objetivos.

Epidemia – Compaixão Dissimulada

A quinta praga, na qual uma epidemia aniquilou os rebanhos do Egito, serviu como uma incorporação física da compaixão dissimulada que, como uma epidemia, prejudica silenciosamente as pessoas sem que elas percebam. O que é compaixão? A Cabalá declara que compaixão é mais poderosa e duradoura que o amor. O amor geralmente não enxerga as falhas do ser amado; portanto, quando as falhas emergem, elas podem enfraquecer o amor, se não destruí-lo totalmente. A compaixão, por outro lado, leva em consideração todos os defeitos do indivíduo e apesar disso estende o coração e uma mão amiga.

Essa é a compaixão moral, a capacidade de a alma sentir o sofrimento e as necessidades do próximo.

A compaixão “egípcia” é dissimulada, astuta e enganosa, e a qualidade sedutora do compassivo é usada para explorar as fraquezas das pessoas para proprositos egoístas e metas destrutivas. Quando alguém usa a compaixão dessa maneira bem refinada, inflige danos sobre uma pessoa na mesma maneira silenciosa de uma epidemia.

Furúnculos – Rejeição Brutal

A sexta praga, na qual brasas de uma fornalha ardente saltavam sobre a terra criando furúnculos sobre a pele da população do Egito, é o símbolo físico da rejeição cruel.

Na Cabalá, o fogo incorpora a capacidade da alma para rejeitar. Assim como o fogo, um ato ou uma palavra de rejeição podem abater ou até destruir aquele que é rejeitado. Uma conexão adicional entre fogo e rejeição está no fato de que o fogo irrompe para cima, afastando-se da terra. A rejeição também constitue um ato de viajar interiormente e para cima no próprio mundo da pessoa, removendo o seu ser das pessoas e dos eventos que a cercam.

Porém, uma alma sadia precisa saber como rejeitar, assim como deve saber como abraçar. Com frequência a pessoa é chamada a recusar um anseio destrutivo, a cortar um relacionamento doentio, a dizer não para uma criança mimada ou a um oferta comercial sem ética. Isso é fogo sadio. É um fogo que destrói o negativo a fim de construir o positivo.

Porém, quando nossa capacidade interior para a rejeição se transforma em amargura, ódio e crueldade, as brasas da alma tornam-se uma força destrutiva. Como os furúnculos, infectam nossas vidas e as vidas das pessoas ao nosso redor.

Granizo – Amor Congelado

A sétima praga, na qual o granizo destruiu toda a produção do Egito, é o símbolo do amor egoísta.

Se o fogo simboliza a rejeição, a água, descendo naturalmente de um plano mais elevado para um mais baixo, incorpora as qualidades da generosidade e da bondade. Na Cabalá, o fluxo de amor é comparado a um fluxo de água, irrigando e nutrindo a alma humana com sua vibração e frescor.

Porém, um homem que se acha no cativeiro “egípcio” conhece apenas um amor gelado, baseado inteiramente em motivos de autointeresse e considerações egoístas. O fluxo de amor dessa pessoa, como a chuva, torna-se congelado como o granizo, prejudicando seus entes queridos em vez de nutri-los.

Do Coração à Mente

Não é coincidência que as primeiras sete pragas estejam registradas em uma seção da Bíblia, ao passo que as três últimas estão em outra.

As primeiras sete pragas – sangue, sapos, piolhos, feras, epidemia, furúnculos e granizo – refletiam a perversão egípcia das sete emoções – confiança, conexão, submissão, ambição, compaixão, rejeição e amor.

As três últimas – gafanhotos, trevas e morte dos primogênitos – representam a corrupção mais grave das faculdades intelectuais e a dimensão supraconsciente da alma egípcia. Quando as emoções e instintos de alguém são prejudicados, a mente sã e objetiva oferece esperança de cura. Porém, quando a mente começa a pregar peças feias, o caminho para a cura torna-se dolorosamente desafiador.

Gafanhotos – Inteligência Pervertida

A oitava praga, na qual os gafanhotos não deixaram uma só folha verde, serve como um símbolo das consequências destrutivas de uma mente corrompida.

A capacidade de escrutínio e pesquisa intelectual continuam sendo o dom mais precioso da raça humana. Permitem que exploremos o universo, melhoremos nossa vida e possamos descobrir o elevado chamado moral da família humana.

Porém, o mesmo poder pode servir como instrumento para racionalizar todo mal praticado sob o sol e para justificar todo estilo de vida ou hábito destrutivo.

Como o gafanhoto que consumiu todas as plantas existentes no Egito, deixando atrás de si o solo estéril, a mente corrupta pode desenraizar toda estrutura moral e alicerce sagrado já estabelecido, deixando em seu rastro uma sociedade destituída de valores espirituais e princípios absolutos. Essa é a tragédia do Egito – como o intelectualismo, em que alguém tem a mente tão aberta que seu cérebro cai para fora.

Trevas – Uma Mente Trancada

A nona praga, na qual uma densa escuridão envolveu todo o Egito, reflete a incapacidade da alma “egípcia” inibida de concretizar sua faculdade de concepção.

O poder da concepção é a capacidade da mente de criar uma ideia nova e original que previamente era inacessível. Como? Quando a mente sente com intensidade suas limitações e fronteiras, suspendendo seu ego intelectual e abrindo-se a uma luz superior, a verdade antes inacessível pode emergir e iluminar o recém-criado vácuo.

Quando alguém é arrogante e desdenhoso, priva a própria mente da habilidade de sentir a iluminação, forçando-se a permanecer na escuridão, permanece para sempre restrito a uma visão estreita da vida.

Morte dos Primogênitos

A décima e última praga, a morte de todo primogênito egípcio, foi a mais devastadora de todas. Refletia o fato de que o abuso egípcio da alma não somente afetou suas faculdades conscientes, como distorceu e destruiu também suas forças supraconscientes.

Na Cabalá, o primogênito é um símbolo dos primeiros instintos e motivos formados de uma alma, que estão sob a superfície do ser consciente. Essa dimensão da personalidade é naturalmente mais difícil de cilar porque está oculta e inacessível. Porém, um estilo de vida de vício e abuso contínuos terminarão por provocar a morte do primogênito, ou a morte do elemento supraconsciente da alma da pessoa.

Essa foi a “bala” final que colocou um fim no ciclo pernicioso do vício e abuso egípcios. O povo judeu foi libertado e puseram-se a caminho para receber os Dez Mandamentos.

O que são os Dez Mandamentos? Correspondem às dez pragas. Assim como as dez pragas refletem a perversão das dez faculdades da alma, os Dez Mandamentos representam o caminho da cura espiritual dessas dez faculdades, permitindo que todas as dez expressem a harmonia e esplendor da essência Divina da pessoa.