Quando estudava na Yeshive University no início dos anos 1960, eu costumava assistir a uma aula sobre Filosofia Chabad na noite de quinta-feira. A aula era interessante e bastante informativa, e eu nunca me intimidava em fazer perguntas. Como você podia dizer tal-e-tal quando outros filósofos judeus apresentavam outras teorias? Como você reconcilia seus desacordos? A resposta recorrente do professor era: “O Rebe sabe,” referindo-se ao Rebe de Lubavitch, Rabi Menachem Mendel Schneerson, de abençoada memória.

Embora o professor estivesse bastante familiarizado com a filosofia Chabad, ele não estava tão bem informado sobre outros filósofos judeus como Maimônides e Rabi Saadiah ben Josef (882-942), conhecido como Saadiah Gaon.

Um dia, após outra rodada de questionamento incessante, o professor sugeriu: “Por que você não escreve uma carta ao Rebe pedindo uma audiência privada?” Escrevi uma carta ao Rebe em hebraico, dizendo o que estava estudando, e expliquei que eu tinha algumas dúvidas filosóficas que gostaria de discutir com ele, se possível.

Passaram-se alguns dias quando fui contactado pelo secretário do Rebe e tive uma audiência marcada para dali a três semanas às 3 horas da madrugada. Durante algumas noites da semana, o Rebe costumava marcar audiências pouco depois da hora em que a maioria das pessoas estaria voltando para casa após o trabalho, continuando durante a noite toda até que todos tivessem sido atendidos.

Quando chegou a hora, fui de metrô ao escritório do Rebe no 770 da Eastern Parkway no Brooklyn. Antes de entrar na sala, fui instruído a prestar atenção ao som da campainha, que significava o fim da audiência.

Naquela época não havia mini-gravadores, e não escrevi quaisquer notas durante a audiência. Apesar disso, lembro-me bem de cada detalhe de nossa conversa.

Fiz ao Rebe as minhas perguntas sobre o desenvolvimento da lei e tradição judaicas. Eu estava curioso para saber como a lei e a tradição judaica evoluem e mudam no decorrer do tempo. Afinal, não nos vestimos como os judeus que viveram no período bíblico, e também não falamos como eles. Eu queria entender a evolução do pensamento e da prática judaica.

Após poucos minutos a campainha tocou, e desculpei-me, agradecendo ao Rebe. Porém ele disse: “Não, não, ignore a campainha. Por favor, prossiga.” Continuamos a falar, e a cada vez que a campainha tocava, o Rebe instruía-me a ficar.

Estávamos tendo um diálogo sério. No total, fiquei com o Rebe durante algumas horas!

O Rebe explicou-me que quando se trata da evolução da tradição judaica, podemos acrescentar à tradição para ampliá-la e protegê-la, mas não podemos subtrair da prática. A tradição que tem sido praticada por gerações é consagrada por nossos eruditos.

Perguntei ao Rebe de onde vêm os Chassidim. O Chassidismo não existia há quatro mil anos, nem sequer há quinhentos anos!

O Rebe explicou que o Chassidismo é uma adição à tradição judaica, reiterando que temos o direito de acrescentar e ampliar a tradição.

Quando terminamos, tínhamos discutido uma grande variedade de assuntos, e estava quase na hora das preces matinais.

Minha lembrança mais clara sobre a conversa com o Rebe são os seus olhos. Eu olhava dentro dos olhos dele e ele olhava nos meus. Eram os olhos mais intrigantes e belos que jamais vi. Eu sentia que o Rebe estava olhando dentro da minha alma e do meu coração. É difícil transmitir isto, mas senti que ele me entendia mais do que eu entendia a mim mesmo.

Eu sabia que o Rebe era uma pessoa que carregava um movimento inteiro sobre os ombros. Nada acontecia sem seu conhecimento e aprovação.

Milhares de pessoas estavam chegando para discutir milhares de assuntos com ele, porém eu sabia que durante o tempo que passei com o Rebe, ele estava concentrado somente em mim. Senti que tinha 110% da sua concentração e interesse, e aquilo me surpreendeu, pois é difícil (ou quase impossível!) para a maioria de nós fazer aquilo. Ele era uma personalidade singular, genuinamente interessado em mim como ser humano, judeu e futuro rabino. Eu tive seu interesse e concentração por inteiro.

Minha impressão de um rebe chassídico era de alguém que tinha interesse em todos os seres humanos, e uma compreensão sem paralelos sobre a natureza humana. O que me surpreendeu foi que o Rebe era também um excelente erudito. Não posso dizer que eu fosse um erudito naquela época, pois quando conheci o Rebe ainda era um estudante. Mas todo texto que citei, ele conseguia citar a próxima palavra ou a linha seguinte. Estava total e absolutamente familiarizado com tudo que mencionei.

Quando discutimos Saadiah Gaon, o Rebe citou onde ele vivia, os eventos ocorridos durante sua vida, e os temas filosóficos da sua época.

O livro de Saadiah Gaon se intitula Emunot Vede’ot, “Crenças Básicas e Conhecimento”. O Rebe falou sobre o conhecimento e crença durante a vida de Saadiah Gaon, que viveu de 882 EC até 942 EC. Ele também explicou os desafios que a comunidade judaica enfrentou naquele tempo, e como Saadiah Gaon enfrentou a ocasião.

Além disso, ele descreveu os assuntos que Rabi Judah Halevi, que viveu na Espanha e escreveu a obra filosófica Kuzari, teve de enfrentar. Durante sua vida ele teve de discutir com filósofos ateus, cristãos e muçulmanos, e explicar como o Judaísmo pode contrapor-se a eles.

Durante minha audiência, senti que a abordagem do Rebe ao Judaísmo estava muito próxima da abordagem mencionada por Maimônides no Guia para os Perplexos, um volume difícil e complicado. O Rebe e Maimônides estavam tentando fazer a mesma coisa: ensinar-nos como viver como judeus inteligentes, modernos, devotos e estritamente observantes no mundo moderno.


De uma entrevista com Dovid Zaklikowski

Rabino Marvin Tokayer é um conhecido erudito e historiador que mora em Great Neck, Nova York. Durante muitos anos ele foi o único rabino morando no Japão e atuou como Vice Presidente e Diretor de Cultura, Religião e Educação para as comunidades judaicas do Extremo Oriente. Rabino Tokayer escreveu 20 livros em japonês sobre Judaísmo e Vida Judaica, e ao retornar a Nova York fundou e liderou o Cherry Lane Minyan.