Os prédios nessa parte do Brooklyn estão em ruínas, todos marcados por pichações. Grades de ferro cobrem praticamente todas as janelas. Além de uns poucos carros, nada se move sob o escaldante sol de verão. Não admira que o meu motorista de táxi esteja com o pé à toda no acelerador.

A distância, há um outdoor numa parede. Mostra um homem idoso com barba branca. É o falecido Rabi Menachem Schneerson, o sétimo Rebe de Chabad-Lubavitch. O táxi passa pelo cartaz, e tudo muda.

Este novo quarteirão brilha. Está apinhado com dezenas de homens vestindo calças escuras, alguns com casacos pretos apesar do calor, todos com kipot na cabeça e alguns com chapéus pretos: caminhando, conversando, rindo e gesticulando. Um punhado de mulheres e crianças abre caminho entre a multidão. Toda aquela ação parece girar em torno de uma mansão rósea, estilo italianado, com uma bela fachada. Estamos na Eastern Parkway, 770, em Crown Heights, um edifício conhecido em todo o mundo pelos judeus ortodoxos simplesmente como o “770”. É a sede mundial de Lubavitch e o lar do seu último Rebe, que faleceu em 1994 aos noventa e dois anos.

Fui ao 770 para conhecer Rabino Yosef Y. Kazen, diretor do site Chabad-Lubavitch, conversar com ele sobre seu programa de divulgação no Cyberspace e algumas das questões que tenho sobre a obra espiritual online. Sei como é Rabino Kazen porque vi uma foto dele na web. Mesmo assim, quando o vi, foi um choque combinar este homem exuberante que me cumprimenta como amigo com a pequena foto preto e branco digitalizada na internet.

Rabino Kazen é de meia idade, alto e robusto, vestido informalmente com camisa branca e calças escuras. Usa óculos e sua barba avermelhada está salpicada de cinza. Os homens com quem ele está falando me olham curiosamente, pois sou a única pessoa no bairro usando roupas claras e com a cabeça descoberta. Kazen me oferece um cigarro – ele fuma sem parar – e ali ficamos, fumando, e batendo papo durante alguns minutos sobre o tempo, o ar, e o bairro. Estamos esperando pela minha colega, Daisy Maryles, diretora executiva de Publishers Weekly. Sendo uma judia ortodoxa moderna, Daisy, que coordena a cobertura religiosa para PW, ofereceu-se para vir comigo aqui por interesse profissional e pessoal, mas também para agir como minha guia neste canto pouco familiar do Brooklyn.

Após a chegada de Daisy, Kazen nos leva alguns degraus abaixo para o moderno edifício que mantém próximo ao 770. Lá dentro, o Século Vinte secular parece abrigar um outro tempo, outro espírito. Mulheres envoltas em écharpes e vestidos com mangas longas se inclinam, murmurando preces em hebraico.

Descemos por um corredor estreito. Numa curva, uma pequena janela se abre para uma sala incrivelmente grande, repleta de ortodoxos de pé conversando, lendo. Era nesta sala que Rabi Schneerson cativava seus seguidores com sua conversa sobre D'us, Judaísmo e Torá. Eu quero ficar, apreciar a vista, mas Kazen nos leva dali, passando por uma porta lateral e subindo quatro lances de escadas gastas.

Entramos numa sala pequena apinhada de cadeiras, mesas, modems, computadores, um bebedouro, estantes e bancos de trabalho. Por toda parte há fios. As paredes são cobertas de painéis de madeira baratos, e um linóleo riscado adorna o piso num padrão xadrez. Quase tudo está gasto e manchado, um pouco encardido, exceto o vidro sobre o quadro com a foto do Rebe que está pendurado numa parede.

Cada um encontra um assento. A sala está quente, o ar abafado. Olho para o bebedouro. Seu nível vai cair rapidamente antes que terminemos a conversa.

“A sala que temos aqui mede três metros por um metro e meio,” informa Kazen, as palavras saindo numa sucessão alta e rápida. “Mas está dividida em três segmentos. Uma é para pessoas na Internet, mensagens que são enviadas semanalmente para perguntas individuais e discussões. Há uma área de desenvolvimento de computador, e temos então o escritório.”

“Quantas pessoas trabalham aqui?”

“Temos até cinco pessoas de uma vez.”

“Espero que vocês gostem uns dos outros”, ela brinca.

Os cinco são; Eli Weinsbacher, diretor de sistemas para o site; dois programadores; e o Webmaster do site, ou programador chefe David, filho de Kazen, que tem 14 anos. É muito jovem para um Webmaster, mas não jovem demais. Cyberspace é um tipo de sala pioneira, Bill Gates tinha dezenove anos quando fundou a Microsoft.
“Meu filho costumava me observar sentado ao computador, e sempre queria saber o que estava acontecendo.” Kazen sorri ao se lembrar. “Então aos onze anos e meio ele criou um pequeno programa só por criar. Basicamente, ele criou nossas homepages.”

A sala onde os cinco se acotovelam é típica de outros lançadores de sites religiosos. Não é preciso muito para criar um website. Com poucas exceções, os sites espirituais na Net têm um orçamento bem apertado. O pouco que há de dinheiro vai para equipamento e custos operacionais. Não há necessidade de um escritório luxuoso. As milhares de pessoas que acessam o site Chabad-Lubavitch toda semana não veem esta sala, pois o Cyberspace esconde tanto quanto revela.

O site que Kazen dirige é suave e colorido, no entanto a página principal mostra uma foto do Rebe, com as legendas: “Chabad-Lubavitch no Cyberspace” e “Judaísmo na Internet à velocidade da luz”. A página é enfeitada com ícones em vermelho, azul, verde, amarelo, roxo e dourado. Não há uma mancha, arranhão ou defeito à vista. Chabad-Lubavitch no Cyberspace é um local brilhante, impecável, refletindo o bom humor que é característico dos seguidores deste ramo do Judaísmo Chassídico.

Os Chassidim, ou Caminho dos Piedosos, surgiram sob a orientação do grande místico judeu conhecido como o Baal Shem Tov na Europa Oriental na metade do século dezoito. (O estilo de roupa usado pelos de Lubavitch é um legado daquele tempo e lugar.) O Chassidismo enfatiza o relacionamento do indivíduo com D'us e a devoção para com o próximo. Chabad-Lubavitch por sua vez foi fundado pelo primeiro Alter Rebe, Shneur Zalman, ao final do século dezoito.

Rabi Zalman enfatizava a importância do intelecto na prática mística judaica, bem como o papel importante do tsadic, ou santo iluminado, na vida religiosa da comunidade. A sucessão de Rebes Lubavitch é dinástica, geralmente de pai para filho, embora Rabi Schneerson fosse o genro do Rebe Anterior.

É difícil superestimar a influência dos rebes, e de Rabi Schneerson em particular, sobre Chabad-Lubavitch. No decorrer de sua liderança, que começou em 1950, o Rebe promoveu um enérgico programa de divulgação para judeus não ortodoxos, que fez uso de equipamento de alta tecnologia; rádio, televisão, telefones, beepers, e finalmente, computadores. Segundo a estimativa de Rabi Kazen, cerca de 15 mil Lubavitchers moram na comunidade de Crown Heights no Brooklyn, e cerca de quinhentos mil estão espalhados em todo o mundo. Os números eram muito menores antes de Rabi Schneerson assumir a liderança do movimento, e a maioria dos seus seguidores leva a divulgação muito a sério.

Chabad-Lubavitch no Cyberspace tem raízes veneráveis pelos padrões online. Nos anos de 1980, redes eletrônicas como Fionet conectaram os digerati, que participavam em boletins eletrônicos como a Keshernet, uma BBS judaica, ou sistema de boletins, ao qual Kazen se juntou na década. Em 1989, através da Keshernet, Kazen recebia e-mail de Reform Jew no Texas, que contou a ele sobre uma mulher judia que tinha se mostrado alarmada pelo dilúvio de e-mails que ela tinha recebido de missionários cristãos. A mulher estava ansiosa para ler escritos judaicos, mas havia um problema: ela era alérgica a tinta. “Eu disse a mim mesmo”, relatou Kazen, com os olhos brilhando pela maravilha daquilo tudo, “Um segundo! Aqui temos um nicho que não foi preenchido!”

O rabino enviou um e-mail para a mulher com algum material judaico sobre prece. “Então comecei a procurar e pedir a editores dentro da organização para me fornecerem material. O texto básico da filosofia Chabad, o Tanya, é um livro de cinco volumes que tem lições diárias. Consegui este livro da tipografia, tive de remover o hebraico, tive de mexer com os itálicos e outras coisas. Aquilo deu um pouco de trabalho.”

Kazen tornou o Tanya e outros textos judaicos importantes disponíveis online para quem os quisesse. Juntamente com outros membros da Keshernet, ele então foi onde todos na comunidade iam para a palavra final: Rabi Schneerson.

“Perguntei ao Rebe se valeria a pena entrar na Internet. Em 1990 a Internet estava começando a fazer algumas ondas, mas estávamos apreensivos porque era o Ocidente Selvagem. E o Rebe disse para ir em frente com aquilo – para ir totalmente.”

“Um amigo meu, Eli Winsbacher,” explica Kazen, “é um gênio dos computadores. Conversei com ele a respeito e disse: ‘Precisamos desenvolver um site eletrônico Chabad. Um centro judaico eletrônico.’ E ele disse: ‘Você está louco.’

Kazen ri. “Sabe, muitas pessoas me disseram isso, mas eu finalmente o convenci.”

Atacando de frente, os dois foram para Long Island para se encontrar com funcionários da Dorsai Embassy, uma empresa sem fins lucrativos que fornece serviços de computador para outros grupos sem fins lucrativos. “Eles olharam para nós e disseram: ‘Sabe, Rabino, vai levar tempo longe de casa, e tempo para estudar este negócio e aprendê-lo. Está preparado?’ E dissemos: ‘Sim, estamos preparados.’”

Kazen balança a cabeça. “Dois anos e meio – toda noite, noite sim, noite também – passamos o tempo ali. Eles nos deram nosso primeiro computador, e nos ensinaram como colocar informação num gopher [um programa-menu que exibe recursos da Internet como arquivos de texto]. Então tirei tudo do disco rígido de 4—megabytes que eu tinha e coloquei no site gopher.

“Perguntamos ao Rebe se podíamos usar o nome Chabad. [Chabad é um acrônimo para as palavras hebraicas, e significa “sabedoria”, “entendimento” e “conhecimento”.] Ele disse que sim. Ao final de 1993 entramos online como Chabad.org. Por fim mudamos os computadores do porão de minha casa para este prédio, e mudamos os servidores [computadores que fornecem processamento de dados para outro computador, geralmente menor] de Dorsai para cá, conseguimos T1 [uma linha de conexão telefônica avançada para a Internet], estamos funcionando.”

Aquele funcionamento custa caro, mas Chabad-Lubavitch no Cyberspace recebe poucos fundos. A maioria das despesas é paga do próprio bolso de Kazen e Winsbacher. “Nós dois,” lembra Kazen, “acabamos com nossas economias. O retorno aqui é espiritual. Não há retorno financeiro aqui.” Como a maioria dos site religiosos na Web, Chabad-Lubavitch tem poucos anúncios pagos. O site vende alguns itens, como um kit para montar uma menorá, participação num clube de fita-do-mês, e um vídeo de culinária, “Um Sabor de Shabat (“Cholent, Babaganoosh? Kugel? Estas são palavras em código que desvendam os mistérios de uma Antiga Civilização?”). No início de 1997, apresentava anúncios de diversos “patrocinadores”, incluindo uma corretora de ações sediada na Flórida.

“A ideia,” declara Kazen com um aceno de mão, “é que o Judaísmo tem de ser grátis!”

O site de Kazen funciona basicamente como divulgação educacional. Isso é verdadeiro sobre a maioria dos sites religiosos na internet. Mas quando Daisy pergunta a ele quantos “Chabadniks” estão conectados ao servidor, a resposta vem com uma surpresa.

“Do nosso próprio povo, uma pequena porcentagem – uma porcentagem muito pequena.”

“Sério,” diz Daisy, “então isso não é para os seus?”

“Nossa estrutura nunca foi para nosso próprio grupo. Pelo contrário, foi criada estritamente para lidar com o mundo exterior. Não sei se a pessoa Chabad média está querendo que o filho use a Internet. É como colocá-lo no meio de uma loja repleta de revistas. Então nunca entramos na comunidade para tentar forçá-la. Minha perspectiva aqui é sair para o mundo. Levar uma mensagem do Judaísmo para o judeu que não sabe muito, ou para o não-judeu interessado em descobrir o que o Judaísmo tem para oferecer.”

Chabad e outros ortodoxos não são os únicos judeus promovendo o Judaísmo online. Há muitos grupos de Conservadores, Reformistas, Reconstrucionistas e Humanistas que estabeleceram sites na Web. Páginas dirigidas aos estudantes são muitas, particularmente em sites conectados com Hilel, a organização global de campus judaico. Provavelmente existem milhares de sites judaicos na Web.

Somente Chabad-Lubavitch em Cyberspace atinge muita gente – mais de 2 milhões em 1995, segundo o Rabino. Suas páginas em média têm “vinte a trinta e cinco mil acessos por semana. E este é apenas o nosso site.” (Uma página da Web recebe um acesso cada vez que alguém baixa um arquivo de texto, visual ou áudio daquela página. Uma pessoa pode visitar a Web uma vez, portanto, e contabilizar muitos acessos.)

E há numerosos outros sites Chabad-Lubavitch online, diz Kazen. Isso parece natural para um movimento que tem centros em muitas cidades dos Estados Unidos, Canadá e Europa, bem como em oito cidades no Marrocos, um centro no Peru, Cazaquistão, Cingapura, Hong Kong e Zaire, entre outros locais.

“Os sites estão conectados de alguma maneira?” pergunta Daisy.

“Estão todos conectados,” diz Kazen, inclinando-se com entusiasmo. “O material é todo baseado nos ensinamentos do Rebe ou em Judaísmo em geral, mas há bastante sabor local. Por exemplo, a área Baltimore-Washington está começando a atingir as mulheres no Judaísmo. Há um sujeito em Marin County que está colocando jogos e Judaísmo, com questões como: O que tem o polo a ver com Judaísmo? Como se pode aprender uma lição com isso? Temos outro sujeito na Califórnia que está apresentando receitas casher de locais diferentes do mundo.”

Os visitantes online que fazem Kazen vibrar de alegria são os judeus errantes que reagem ao site e retornam ao rebanho. Ele nos conta sobre um despachante da polícia em Filadélfia que não somente voltou ao Judaísmo por causa das atividades onlline de Chabad, como agora passa os feriados na casa de Kazen.

“Tive um aluno no Novo México,” lembra Kazen, “que é muito interessante. Ele escreveu-me porque queria saber se era permitido fumar maconha na manhã de sábado em preparação para a prece, assim ele poderia ficar mais esperto.” O rabino dá risada dessa ideia.

“Escrevi para ele que, dentro do Judaísmo, o conceito é que a prece em si mesma deixa você alto. E também, você não fuma aos sábados. Ele terminou passando o verão aqui, numa yeshiva, e está planejando fazer mais estudos no próximo ano. Eu o conheci este ano, e ele disse que como respondi de maneira positiva e não desconsiderei sua pergunta, tive um profundo efeito na vida dele.”

Esse estudante contactou Kazen através de “Faça Uma Pergunta”, uma página da Web no site, que oferece um campo onde os curiosos podem digitar uma pergunta e então, clicando num ícone, enviar um e-mail para o rabino. Kazen relata que passa em média seis horas por dia lidando com essa ferramenta interativa. “Ontem,” lembra ele, “recebi uma pergunta de uma mulher que tinha comprado uma ânfora egípcia com duas alças e queria saber se podia usá-la para lavar as mãos – a ablução ritual antes de comer pão. Muito interessante.

Uma aluna da Universidade Brandeis que cortara o dedo com uma faca enquanto descascava uma maçã queria saber o que fazer com a faca – se era ou não casher, por causa do sangue.

“Essas perguntas chegam às onze da noite, à meia-noite, e eles querem a resposta agora. Não querem ter de esperar até quem sabe quando.”

Não é o próprio Kazen quem responde todas as perguntas. Às vezes ele as passa para a frente. “Geralmente tento descobrir de onde a pessoa é, quem é, se tem contato com um rabino local ou representante Chabad, e a envio para lá,” diz ele. “Acho que a parte boa da Net é que permite que as pessoas se sentem sozinhas, leiam, estudem, questionem, e façam perguntas e mais perguntas, até se sentirem confortáveis e não se importarem mais se estão associadas com um estereótipo específico. E foi aí que descobri estar o poder disso tudo.”

“Em outras palavras,” diz Daisy, “é um poder anônimo quando você primeiro faz essas perguntas.”

“Um poder totalmente anônimo.”

“Isso deixa você à vontade para perguntar qualquer coisa.”

“Qualquer coisa. Já tive pessoas de todas as esferas da vida, que fazem perguntas sobre homossexualidade, transexualidade, bissexualidade. Tive um psiquiatra da Austrália que perguntou-me como lidar com pacientes que estão sendo testados por doenças genéticas e que terão uma morte horrível ainda jovens. O cara não é americano, não sabe como eu sou, nem sequer sabe que sou real ou não.”

A maioria do material disponível em Chabad-Lubavitch no Cyberspace – agrupado em áreas como “A Mulher Judia” e “Misticismo Judaico”, lições interativas de Torá em hebraico e inglês – é baseada em textos, (embora sejam clips gráficos e que se pode baixar, incluindo clips de canções Chabad como “Oh, Rebe”). Isso parece apropriado para o Povo da Palavra. São alguns atrativos do Cyberspace, no entanto – os visuais interativos, especialmente em 3-D – que podem atrair visitantes a sites da Web assim como o néctar atrai as abelhas. Kazen sabe disso.

“No decorrer dos anos, sempre tivemos um evento chamado Chanucá ao Vivo na TV a cabo,” diz ele, “com links via satélite no mundo inteiro. Resolvemos que este ano, vamos levar isso a outro nível.” O que Kazen está mencionando é o “Festival de Luz!” (um ambicioso programa online para a época de Chanucá de 1996 que iria, como informou a imprensa, “utilizar o poder e o alcance da Internet para elevar o moral e o barômetro ético do nosso planeta.)”

A utilização básica é através do “Database Global Interativa de Boas Ações”, que se pretende seja um site permanente no qual, diz Kazen, “as pessoas poderão participar acendendo sua própria menorá, digitando um ato de bondade ou algo positivo que fizeram. E ao ter um mapa do mundo inteiro, à medida que cada pessoa digita algo de bom que fez, outra parte do mundo será iluminada.” Essa base de dados, ele explica, adere à “nossa perspectiva de que a Internet é um cumprimento da profecia de Yeshayahu de espadas transformadas em arados.”

Os planos de Kazen para o Cyberspace são ambiciosos, mas ele é cauteloso sobre aquilo que coloca online. Dentre os muitos documentos conectados ao seu site, um está notavelmente ausente; o próprio alicerce do Judaísmo, os primeiros cinco livros da Torá. Quando lhe pergunto por que, ele fica sério e explica que embora deixe disponíveis numerosos comentários bíblicos, “a Torá em si não está ali. Para colocá-la na Net, dizer que ‘aqui está uma autêntica versão como é fornecida pelo movimento’ – esta é uma responsabilidade muito, muito grande. Qualquer pessoa pode entrar numa loja e comprar uma Bíblia do Rei James, não precisam de mim para isso. Prefiro apresentar uma sinopse e fazer com que a pessoa vá até a sinagoga e participe.”

“E quanto à possibilidade de colocar uma sinagoga na Web?” pergunto. “Uma sinagoga pode ser duplicada online?” Esta parece uma pergunta crucial. Para os religiosos se mudarem totalmente para o Cyberspace, eles teriam de levar seus rituais e senso de comunidade com eles.

“Isso pode ser duplicado,” responde Kazen, “mas apenas até certo ponto. Há limitações. Por exemplo, na vida judaica, o homem acima dos treze anos tem de colocar tefilin [caixas de couro contendo Rolos de Torá com passagens] todos os dias da semana. É um ato físico. Você está pegando uma caixa de couro e colocando-a sobre o seu braço, e está enrolando-a sobre seu braço e colocando-a sobre a cabeça e está recitando uma prece específica. Sim, a prece pode ser lida na Net. Porém o ato real precisa ser feito por uma pessoa física. O conceito de Judaísmo em geral é usar o material – o couro de vaca, o pelo da ovelha transformado em lã – para que haja verdadeira participação em todos os quatro diferentes níveis: o inanimado, a flora, a fauna e o ser humano – todos em um aspecto.

“Posso fazer uma refeição virtual?” ele pergunta. “Quanto tempo vai me tomar? Posso ler uma receita, mas ainda tenho de sair e comprar os ovos, comprar o açúcar.”

Pergunto a Kazen se há outros aspectos do Judaísmo que não podem ser transferidos ao Cyberspace.

“Bem, você não pode ter um minyan online. Não pode ter um quorum de dez pessoas.”

Não entendo isso. Não consigo entender por que dez homens judeus não conseguem se encontrar em tempo real numa sala de bate-papo online e assim formar um minyan – o número mínimo, segundo a tradição judaica, necessária para rezar e fazer um culto comunitário.

“Isso é muito interessante. Por que não?” “Porque o quorum de dez pessoas exige dez corpos físicos. Cada pessoa tem uma centelha de Divindade dentro de si, que é a alma. É preciso o quorum de dez pessoas, que refletem os dez níveis diferentes da Divindade. Portanto você pode ter nove pessoas que poderiam não ser religiosas, e uma pessoa que é religiosa. Seu comprometimento religioso não importa, desde que sejam judeus.”

“E do sexo masculino,” diz Daisy.

“E do sexo masculino, acima de treze anos. Mas o conceito é que se você tiver aquelas dez pessoas, está atraindo um nível mais alto de Divindade que permitirá a você recitar a prece Kadish.”

“Mas por que,” pergunto, “isso não pode ocorrer numa sala virtual com dez homens?”

“Porque não há presença física, Nós não vemos necessariamente a realidade espiritual daquilo que está acontecendo na hora, mas certas coisas têm de ser feitas com pessoas físicas, assim como o alimento tem de ser comido por pessoas físicas.”

“Então você não poderia ter um bar mitsvá,” Daisy enfatiza.

“Certo. E não se esqueça, o relógio para ao final de seis dias. Há um conceito em Judaísmo chamado Shabat. Aquele dia na semana em que desligamos o mundo e passamos para uma ilha totalmente diferente no tempo. Este é um aspecto que não pode ser lidado na Net.”

Apesar disso, Kazen e outros de Chabad têm esperanças extraordinariamente altas para a Internet. “A Moderna Tecnologia e Judaísmo,” um ensaio postado no site baseado em palestras que Rabi Schneerson fez no final dos anos 1960 e início dos anos 1980, faz esta ousada declaração: “O avanço do entendimento científico está cada vez mais revelando a unidade inerente no universo, como é expressa nas forças da natureza. Estar consciente disso pode servir como uma preparação e prólogo para a Era de Mashiach, pois naquele tempo a unidade simples, absoluta do Criador se tornará evidente.”

O Rebe está falando aqui especificamente do rádio e da televisão, porém sem dúvida ele teria estendido esses pensamentos para a comunicação via computadores.

Kazen confirma isso. “Este conceito de unidade inerente no mundo,” diz ele, “é mostrado muito, muito fortemente através da Net, talvez ainda mais que através do rádio e televisão. Porque se houver um efeito entre eu e uma pessoa que está em Pequim, ou entre eu e uma pessoa na Antártida, e for uma comunicação instantânea, o que a lição está nos mostrando?”

“A tecnologia de rede de computadores então é uma tecnologia sagrada,” eu pergunto, “pois está servindo a um fim sagrado?”

O rosto de Kazen se ilumina como se eu tivesse dito a palavra mágica. “Sim. A humanidade no passado era glorificada pela guerra. Todos os monumentos que se vê estão glorificando a guerra. E a profecia de Yeshayahu é que não haverá mais guerra, que as espadas serão transformadas em arados. Então, como o mundo chega a isso?

“Minha pergunta é, de uma certa maneira humorística, TCI / IP (o protocolo de comunicações dominante na Internet] outro nome para D'us? Porque na essência, isso está longe de você encontrar uma unidade entre as pessoas. Em última análise todos terão um pedaço da ação. Portanto sim, em minha opinião isso é um meio rumo à Era de Mashiach.”

Kazen respira fundo, e então dispara. “Vamos aprender com a lição que tivemos há 50 anos. O país mais avançado no setor tecnológico no mundo, ao não colocar a Divindade dentro de si mesmo, criou uma nação que aniquilou milhões de pessoas. Felizmente a Net, que é a nossa mais moderna tecnologia, juntará a humanidade para um objetivo melhor, e não será abusada. Há um conceito de bem e luz no mundo, e esta é uma tecnologia que pode ser o meio para aquele fim.”

Com essa nota inspiradora, concluímos nossa conversa formal e saímos da sala, descendo aqueles quatro lances de escadas. Lá fora, Kazen acende um cigarro e inala como um homem dando sua última baforada. Descemos o quarteirão, para a entrada principal do 770, e passamos por um corredor pequeno. À nossa direita, fileiras de homens jovens debruçados sobre livros. Ao final da passagem, entramos numa sala com bancas de telefones e uma enorme mesa com chaves. Este é o ancestral da sala de Web de Kazen: o centro de comando da mídia de onde os Lubavitchers em todo o mundo se ligavam aos discursos do Rebe via linhas de telefone. Lembro como, quando o Rebe entrou na casa dos noventa anos, os receptores de bip eram distribuídos a todos os seus seguidores do sexo masculino para avisá-los sempre que ele saía da sua sala particular para rezar.

Estas são, pensei, pessoas bastante plugadas.

Finalmente, Kazen nos leva escada acima para a biblioteca de Rabi Schneerson. A sala murmura história sagrada. Em estojos de vidro, lembranças do passado do Rebe – fotografias, documentos, Cartas, Biblias – estão preservadas com muito cuidado. Numa pasta encontrei um passaporte gasto pelo uso e idade, prova do legado da Diáspora, dos judeus espalhados pelo globo. Olhando pelo vidro, ocorreu-me que numa maneira virtual a Internet tornou possível a convergência no Cyberspace de judeus em todo o mundo a estimularem o oposto da Diáspora tão seguramente como fez a criação de Israel.

Passo minha mão pelo lado polido de um antigo relógio carrilhão que assinala a lua segundo o Calendário Hebraico. A madeira parece morna contra os meus dedos – tão diferente, eu penso, tão mais generosa aos meus sentidos que o relógio Windows que marca os minutos na tela do meu computador. Pouco depois, estendo a mão para Kazen, me despedindo. A mão dele é ainda mais quente que a madeira do carrilhão. Tocando sua mão, sei que estou tocando uma centelha da realidade viva por trás do Cyberspace.