"Não tema homem algum". - Versículo 1:17

O "Movimento de Iluminismo", em sua guerra à tradicional vida judaica, estava novamente conspirando para arregimentar o auxílio do governo czarista para alongar seus tentáculos.

Liderando o esforço estava um certo Sr. Karpos, que as autoridades haviam instalado como Rabi em Odessa. Ele preparara uma volumosa tese "provando" que a religião é o inimigo número um da civilização e tinha concluído com a recomendação que o estudo da cabalá e outros fundamentos do judaísmo fossem declarados fora-da-lei. Dirigiu-se então a Petersburgo para apresentar suas "descobertas" ao governo.

Meu pai soube dos acontecimentos e despachou-me para Petersburgo para lidar com o problema. O objetivo da viagem foi mantido em segredo: viajei com minha esposa, Rebetsin Nechama Dina, e comunicamos que íamos para uma consulta médica. Após vários dias em Petersburgo eu não fizera qualquer progresso; todos meus esforços e conexões de nada valeram. Notifiquei meu pai por telegrama, de que todo meu empenho com Karpos havia falhado. Papai respondeu-me que deveria continuar tentando.

Quando mais dias inúteis haviam se passado, tomei o trem para casa a fim de informar papai pessoalmente sobre a desesperança da situação. Ao entrar na sua sala, ele se preparava para as preces matinais; seu talit estava dobrado sobre o ombro e examinava seu tsitsit. Reportei-lhe os fatos e esforços vãos dos últimos dias, concluindo que, na minha opinião, nada poderia ser feito para remediar a situação.

Foi então que meu pai falou: "Certa vez Rabi Schneur Zalman enviou seu filho, Rabi DovBer, numa determinada missão. Rabi DovBer retornou de mãos vazias. Ao chegar, encontrou seu pai com o talit dobrado sobre o ombro, verificando seu tsitsit em preparação para as preces matinais.

"Rabi Schneur Zalman voltou-se para ele e disse: ‘Vê? Isso é um talit. O talit expressa o nível da Luz Transcendente, e a Luz Transcendente ofusca todas as forças do mal. Ao ouvir isso, Rabi DovBer beijou o titsit do pai e voltou à sua missão. Foi bem sucedido desta vez."

Sem outra palavra, apanhei o tsitsit de papai, beijei-o, e embarquei no próximo trem para Petersburgo. Novamente, comecei a espremer meu cérebro e fazer minhas tentativas. Então tive uma idéia. Fui ao hotel de Karpos e pedi para vê-lo.

Karpos recebeu-me calorosamente – parece que tinha ouvido falar de mim ou de meu pai. Sentamos e conversamos, e eu troxe à baila o assunto de sua tese. Ele falou-me prontamente de seus planos. "Logo saberemos quem prevalecerá," desafiou ele. "Em breve, nós do ‘Iluminismo’ ficaremos livres do povo judeu e de suas arcaicas noções e práticas.

"Já preparei todo o material," continuou a gabar-se, "agora tenho apenas de dar os toques finais e estará pronto a ser examinado. A Comissão Ministerial de Cultura e Religiões do nosso czar está programada para revisar o problema em alguns dias. De uma vez por todas, conseguiremos provar nosso caso!"

"Posso ver o que escreveu?" pedi.

"Claro, nada tenho a esconder – em uma questão de dias, tudo estará resolvido," disse-me o vaidoso caluniador, entregando-me o manuscrito.

Sem uma palavra, comecei a rasgar a tese em mil pedaços.

Karpos explodiu num frenesi de ódio. "O que está fazendo? Minhas palestras! Minhas anotações! Sabe quantos meses de pesquisa e escrita foram investidos nestes papéis?"

Continuei a rasgar o manuscrito em pedacinhos minúsculos de papel. O tempo todo ele continuou a ferver em fúria e a amaldiçoar-me. Tomado de ódio, golpeou-me sonoramente na face. Quando terminei com seus papéis, deixei o hotel correndo e voltei a Lubavitch.