Por Rabino Adin Even Israel Steinsaltz
Os fatos que são noticiados a todo instante na cobertura do conflito no Oriente Médio e as imagens que são passadas ao mundo tornaram-se razões estimulantes para fazer aflorar manifestações que acabam fugindo completamente do âmbito político. O anti-semitismo não é um assunto recente e suas impressões foram bem traçadas inesquecivelmente ao longo de nossa história, ou não temos memória?

Hoje, judeus no mundo inteiro percebem que o pesadelo jamais acabou. Nossos dias são marcados por notícias através de canais obscuros com propaganda saturada de ódio que proliferam, sem fronteiras, engolindo milhares de km de fibras óticas. Mas não devemos nos afligir. Os momentos de anti-semitismo na verdade podem e devem ser transformados nos maiores e mais poderosos catalisadores do ressurgimento de nossa identidade. A forma mais eficiente é lembrar a cada um de nossos familiares e amigos e que se encontram desconectados ou afastados do convívio judaico, seu nome, sua origem, sua língua, sua história e sua tradição. Se nós não o fizermos com amor e como verdadeiros irmãos, outros já o estão fazendo com ódio cruel e implacável. Há uma pequena história que ilustra bem nossa situação.

Havia um homem que gostava muito de jardinagem e acabou destacando-se nesta tarefa; plantava todos os tipos de flores e plantas e pessoas vinham de longe para admirar sua obra. Em um belo dia de sol, ao admirar as belas cores e maravilhosos aromas que exalavam de sua plantação, começou a pensar: "Meu jardim está completamente desprotegido. Qualquer um que pode aproximar-se e pisá-lo danificando todas as plantas". Assim, logo decidiu construir uma pequena cerca ao redor do jardim. Mais alguns dias se passaram e o homem resolveu reforçar sua cerca pregando incontáveis tábuas. Apesar da cerca exageradamente reforçada, o homem ainda não se deu por satisfeito e derrubou-a erguendo em seu lugar um muro com três metros de altura, com arame farpado, cachorros ferozes, guarita com guarda, sistema de alarmes, e uma parafernália.

Um belo dia, finalmente respirou tranquilo: "Agora sim finalmente minhas plantas estão bem protegidas e não correm qualquer perigo". Só que ele havia ficado tanto tempo sem dar atenção ao seu jardim que, para sua surpresa, todas as plantas já haviam morrido.

Muitas vezes nós também costumamos dar atenção descomunal à faixada, sem nos preocuparmos com o conteúdo. É engraçado que grande parte de nós, judeus, nunca experimentamos o calor de um Shabat de verdade, nunca aprendemos uma palavra de nossa língua ancestral ou estivemos colocando nossos pés em Israel. Mas quando somos tirados de nossa letargia, sacudidos por alguém que ousa desafiar nosso passivo e gradual desaparecimento através de manifestações de ódio e suásticas em nosso caminho, reagimos com total força e desempenho. É como se de repente nos julgássemos poderosos e invencíveis a ponto de fazer desaparecer nossos inimigos com protestos até evaporar. Nos achamos mesmo capazes de destruir o que gerações não conseguiram? Escravidão, expulsões, cruzadas, pogroms, inquisições, massacres, Holocausto e todo o tipo de acusação absurda já foi arremessada contra nós. Estes soam como fenômenos com os quais você consegue dialogar? Nem mesmo o sangue de um terço da nossa nação conseguiu saciar o ódio de nossos inimigos. Será que ao menos serviu para nos educar? Será que ainda continuamos incapazes de decodificar a lição?

A Torá nos ensina que o anti-semitismo sempre irá existir. O Talmud declara: "Por que a Torá foi entregue em uma montanha chamada Sinai? Porque o grande 'Siná', ódio contra os judeus, emana do Sinai." (Siná em hebraico significa ódio e é pronunciado quase da mesma forma que Sinai). Antes da outorga da Torá, as pessoas construíam sua vida em um conceito subjetivo do que era certo e errado. No Sinai o povo judeu recebeu a mensagem de que existe um D'us único que fornece regras morais e de conduta à humanidade; que não se pode viver conforme se deseja e que há uma autoridade superior a quem devemos prestar contas.

O povo judeu foi escolhido para ser "uma luz entre as Nações", e levar a mensagem de moralidade ao mundo. Apesar de representarmos uma ínfima parcela da população, as idéias judaicas tornaram-se base do mundo civilizado.

A única forma de combater o anti-semitismo não é levantando barreiras em nosso jardim, é combatê-lo com o que temos de melhor: nossa identidade judaica. A melhor resposta é nosso crescimento contínuo na contribuição que sempre levamos a todas as áreas da ciência, da fé, da educação e tantas incontáveis, para a humanidade, onde quer que estivéssemos e ainda continuamos a estar. Como "jardineiros" plantamos moral, ética, amor, compreensão, sabedoria, orgulho e legado e deixamos nossa impressão em todo o lugar por onde passamos, onde para alguns, infelizmente, despertamos ódio e inveja.

A fórmula é fácil e eficiente. Experimente convidar um amigo para um jantar de Shabat ou a participar de uma festa judaica. Participe você de uma aula, ou um estudo de Torá, de hebraico, planeje uma excursão à Israel, ao invés de frequentar salas de bate-papo que não levam a lugar algum, navegue por opções incríveis que você nem imagina e que nem ao menos tentou colocar em sua caixa de "Preferências" e que podem ser seu novo e mais perfeito "bote salva-vidas". Enfim faça novos amigos, venha e traga-os para dentro do ambiente judaico. Busque em nossas raízes e em nossa incomparável riqueza religiosa e cultural a indestrutibilidade de nosso próprio jardim. Nos resta apenas duas alternativas: continuamos a construir muralhas e corremos o risco de um dia nos ver protegendo um jardim morto, ou mostramos como é belo nosso jardim e como cuidamos bem dele. Certamente nossos filhos também aprenderão a plantar e a repartir.