"Como é estranho Que D'us Tenha escolhido/os judeus."

O sarcástico epigrama de William Norman Ewer tem provocado dezenas de respostas, mas a pergunta permanece. Por que o povo judeu foi escolhido?

Certamente não porque somos melhores ou mais inteligentes, ou superiores a outros. Esta idéia não encontra eco em nossos textos clássicos. Então, por quê? Tenho sentido ao menos uma pequena parte da resposta nos últimos dias e semanas. Há alguma coisa em nossa história - nosso destino, nosso sofrimento, nossa resistência, nossa capacidade de sobreviver sem perder a esperança - que confere genuína força ao povo, muito além da comunidade judaica.

Eu senti isso no Encontro do Dia Memorial do Holocausto, organizado pela Assembléia de deputados. Não somente eu, mas todos os oradores, incluindo sobreviventes, falaram sobre a tragédia em Kosovo. Nenhum de nós comparou o que está acontecendo ali com o Holocausto. Não há comparação. Mas cada um de nós, com nossa experiência judaica, pôde se identificar com o sofrimento de uma maneira profundamente pessoal. Sabemos em nossos ossos o que significa "limpeza étnica". Os rostos das crianças assustadas e populações fugitivas tocam uma corda aterrorizante na memória judaica. Reconhecemos estas coisas. Já passamos por isso antes.

Jamais ficou tão claro que estamos certos em lembrar o Holocausto - e não por nós mesmos, apenas, mas pelo bem da humanidade. A reação do anglo-judaísmo, por meio dos fundos levantados pela UKJAID, foi impressionante, e o envolvimento de Israel ainda mais. Israel instalou hospitais para cuidar dos feridos. Aceitou mais de uma centena de refugiados. E está fazendo um trabalho notável com crianças hospitalizadas, usando lições que aprendeu da dolorosa experiência das vítimas de ataques terroristas. Esta é a prova, se é que alguma prova é necessária, que recordar o Holocausto não nos ensinou a abrigar a amargura, mas pelo contrário, a prezar a vida e lutar por ela com compaixão e coragem.

No último domingo passei por uma das experiências mais estranhas de minha Chefia de Rabinato. Discursei para um grupo de 5.000 Siques (membros de uma seita monoteísta hindu) no Albert Hall. Eles tinham se reunido para celebrar o tricentésimo aniversário da fundação da ordem Khalsa, um marco no desenvolvimento da fé e vida Sique.

Foi um dia exuberante. Existem muitas similaridades entre as comunidades Siques e as judaicas, especialmente nosso amor pela família e pelas crianças. Houve também uma nota mais triste obscurecendo as celebrações. O bombardeio de Brick Lane, onde outrora era o bairro judaico, lembrou-nos que os asiáticos ainda sofrem com o preconceito que nossos pais tiveram de enfrentar. Portanto, foi bom poder levar uma mensagem judaica de amizade e solidariedade.

Costumava-se pensar que boas relações significava minimizar as diferenças. "Seja um homem na rua e judeu em casa." Este era o famoso lema do século dezenove. Se apenas os judeus não fossem tão judaicos, teríamos menos anti-semitismo. Esta era a teoria. Como estava errada!

Sabemos agora que a assimilação jamais curou o preconceito. Nem ao menos o fez na Espanha do século quinze, onde os judeus se converteram ao Cristianismo assim mesmo sofreram perseguições sob a perversa doutrina da "pureza de sangue", precursora do moderno anti-semitismo. A tolerância que depende de obliterar as diferenças não é tolerância. Em vez disso, precisamos de algo mais - uma capacidade de conviver com a diferença e respeitá-la. Como eu disse aos Siques: "Até que arranjemos espaço para outros, não teremos ainda arranjado espaço para D'us entre nós."

Eis por que precisamos de uma forte comunidade judaica, e não apenas para nós mesmos, mas também para outros. Às vezes nos esquecemos de como outras comunidades se voltam para nós por apoio e inspiração. Não podemos mostrar-lhes como manter as tradições se nós mesmos estamos perdendo as nossas. Não podemos mostrar a eles as bênçãos da vida em família se muitos judeus jovens estão preferindo permanecer solteiros e um terço dos casamentos judeus termina em divórcio.

Aquilo que nossos vizinhos não-judeus querem ver é uma comunidade judaica firme em suas crenças, bem-sucedida em suas escolas, entusiasmada pelo seu estilo de vida. Isso é o que D'us pretendia quando, no alvorecer da era judaica, disse a Avraham e Sarah: "Em vocês todas as famílias da terra serão abençoadas." E isso é o que significa ser um kidush Hashem, santificar o Nome de D'us Apenas sendo fiéis ao nosso legado é que podemos ser uma bênção para os outros.

Então, por que o povo judeu foi escolhido?

Há muitas respostas, mas uma é essa. Tendo a coragem de ser diferente, ensinamos outros a terem a coragem de ser diferentes. Sobrevivendo à catástrofe, ensinamos ao mundo o poder da esperança. E pela nossa fé, ensinamos outras fés que um povo é avaliado não por números, mas pelo seu espírito.

Estas são lições vitais para um mundo tão conturbado.