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Qual é o Propósito da Vida?

Qual é o Propósito da Vida?

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Por Rabi Nissan David Dubov
Todos desejamos levar uma vida significativa. Mas por que estamos vivendo? O que estamos fazendo neste mundo?
Para encontrar a resposta a essa questão fundamental, devemos procurar no próprio livro da vida – a Torá, que é chamada Torá Chaim (Torá Viva). A palavra “Torá” significa “instruções” ou “orientação”, pois a Torá é nosso guia na vida. Ela nos faz constantemente cônscios de nossos deveres nos fornecendo uma verdadeira definição de nosso propósito, nos mostrando os caminhos e meios de atingirmos esta meta.

A criação do homem
A Torá inicia com Bereshit. Quando Adam foi criado, o Criador informou-o imediatamente de seus poderes e revelou-lhe o propósito de sua vida:
“Enche a terra e subjuga-a; domina sobre o peixe do mar e a ave dos céus, e todo animal que se move sobre a terra.” (Bereshit 1:18)
O homem recebeu o poder de conquistar o mundo inteiro e dominá-lo. Na terra, mar e ar, e foi conclamado a fazê-lo; esta foi sua tarefa.
Como esta “conquista do mundo” deveria ser feita, e qual o propósito e verdadeiro significado disso?
Nossos Sábios ensinam que quando D’us criou Adam, sua alma – sua imagem Divina – permeou e irradiou todo seu ser, por isso ele se tornou dominante sobre toda a criação. Todas as criaturas se reuniram para servi-lo e coroá-lo como seu criador. Porém Adam, mostrando-lhes seu erro, disse: “Vamos todos venerar D’us, nosso Criador!”
A “conquista do mundo”, dada ao homem como sua tarefa e missão na vida, deveria elevar e refinar toda a natureza, incluindo as feras e os animais domésticos, ao serviço da verdadeira humanidade; a humanidade permeada e iluminada pela imagem Divina – pela alma, que é realmente uma parte do D’us acima – para que toda a criação percebesse que D’us é nosso Criador.
Desnecessário dizer, antes que um homem saísse para conquistar o mundo, ele deve primeiro conquistar a si mesmo e seu próprio ego, por meio da subjugação da parte “terrena” e “animal” em sua própria natureza. Isso é conseguido através de ações que estejam de acordo com as diretivas da Torá – o guia prático para a vida diária – para que o material seja permeado e iluminado com a luz do D’us Único, nosso D’us.
D’us criou um homem e sobre esta única pessoa na terra Ele impôs este dever e esta tarefa. Aqui então está a profunda, porém clara diretiva, de que cada homem – toda e cada pessoa – é potencialmente capaz de “conquistar o mundo”. Se uma pessoa não cumpre esta tarefa e não utiliza seus inestimáveis poderes Divinos, isso não é apenas uma perda ou falha pessoal, mas algo que afeta o destino do mundo inteiro.

Uma pessoa pode mudar o mundo
Um dos principais aspectos na criação do homem é que este foi criado como um único ser, ao contrário de outras espécies, criadas em grandes números.
Isso indica enfaticamente que um único indivíduo tem a capacidade de levar toda a criação à plenitude, como foi o caso com o primeiro homem, Adam. Ele chamou todas as criaturas do mundo para reconhecerem a soberania de D’us, com o grito: “Venham vamos nos prostrar e ajoelhar perante D’us nosso Criador!” Pois é somente por meio da “prostração” – a auto-abnegação – que um ser criado pode se apegar, e se unir, com o Criador, dessa maneira atingindo a mais plena realização.
Os Rabinos nos ensinam que Adam foi o protótipo e exemplo para cada indivíduo seguir. “Por este motivo o homem foi criado único, para ensinar que ‘uma pessoa é equivalente ao mundo inteiro’”. Isso significa que todo judeu, na verdade todo ser humano, independentemente de tempo, lugar e status pessoal, tem a total capacidade (e também o dever) de elevar-se e atingir o mais alto grau de realização, e conseguir o mesmo para a criação como um todo.

Rosh Hashaná – o aniversário do homem
Esta idéia é reforçada pelo fato de que o Ano Novo Judaico – Rosh Hashaná – celebra o nascimento do homem, que ocorreu no sexto dia da criação.
Na liturgia de Rosh Hashaná vemos que este é chamado “o dia do início de Tuas obras” (texto da prece para Rosh Hashaná). Por que é o “início de Tuas obras” quando, na verdade, Rosh Hashaná corresponde ao sexto dia da criação?
A resposta é fornecida pelos Rabinos: Visto que o homem é o supremo propósito e razão de ser de todos os âmbitos do universo e com a criação do homem, a criação inteira foi completada e realizada, o homem, com efeito, incorpora toda a criação como se, antes dele, nada tivesse sido criado.
Apesar disso, a pergunta deve ser feita. Como isso pode ser verdade quando há um mundo notável além do homem, um mundo impressionante e digno de nota, como declaram os Salmos: “Como são numerosas as Tuas obras, ó D’us”, e “Como são notáveis as Tuas obras, ó D’us”?
Além disso, considerando a criação como um todo, vemos que a “espécie falante” – o homem – é numericamente muito inferior que a ordem dos animais e menor ainda que a ordem das plantas, e menos em comparação com a matéria inorgânica (terra, minerais, etc.).
A resposta – e este, na verdade, é um dos ensinamentos básicos de Rosh Hashaná no que diz respeito à toda a criação – é a seguinte: A ordem na escala de todas as coisas criadas onde substância inorgânicas excedem as plantas, as plantas superam em número os animais, e o homem é a menor espécie de todas, está baseada na consideração de quantidade. No entanto, quando se considera a qualidade, a ordem é invertida: matéria inorgânica, que não tem sinais de vida e locomoção, está na base da escala; acima dela vem o mundo das plantas, dotado de crescimento, mas sem vitalidade e o movimento dos animais; ainda mais acima está o reino animal que, como os animais não possuem intelecto humano, é inferior ao homem – a mais elevada de todas as criaturas. Pois, embora um animal tenha um intelecto todo seu, este não é um fim em si mesmo, mas um instinto, cuja função é servir às necessidades naturais do animal. No entanto, o intelecto humano – desde que a pessoa se conduza como um ser humano e não como um animal – é principalmente um fim em si mesmo. Além disso, o intelecto humano atinge seu objetivo e plenitude não quando serve de instrumento para a gratificação das necessidades físicas, como é o caso dos animais, mas sim quando todas as funções naturais como comer, beber e similares, se tornam servas do intelecto, para que a pessoa possa elevar-se ainda mais alto na busca intelectual e espiritual. Porém esta não é exatamente a verdadeira realização do ser humano. A verdadeira plenitude é atingida quando o intelecto o leva à percepção que existe algo mais elevado que o intelecto, para que o intelecto se renda por completo àquele ideal.
Em termos mais claros, a plenitude humana é atingida quando o intelecto reconhece que o homem, e com ele toda a criação, deve esforçar-se para atingir o reconhecimento e o apego a D’us, Criador do Universo e Mestre de tudo que nele existe.
Este conceito está diretamente relacionado, e deve permear, nossa vida diária como fica evidente também pelo fato de que o Salmo que começa com “D’us reina, Ele Se revestiu em majestade” – ter sido instituído como o “Salmo Diário” para o sexto dia de toda semana do ano. Isto é o que Adam, o primeiro homem, realizou quando reconheceu a soberania do Criador, elevando a si mesmo e toda a criação ao nível de reconhecimento de D’us.
A lição geral a ser deduzida de tudo isso é a seguinte: refletindo sobre si mesma, a pessoa verá que a maior parte da sua vida e a maioria dos seus esforços são despendidos com coisas que, à primeira vista, são materiais e mundanas, como comer, beber, dormir e similares. Fica evidente também que há um número maior de “homens do mundo” que de “homens de espírito”. Em geral, vê-se mais pessoas imersas em assuntos materiais. Por isso, alguém poderia pensar erroneamente que talvez os aspectos físico e material da vida são os mais importantes no mundo.
Rosh Hashaná nos ensina que o oposto é o verdadeiro. Para certificar isso, tomou cinco dias e parte do sexto para criar todos os tipos de criaturas. Porém foi o homem, uma parte muito pequena da criação no tempo e no espaço, que era a essência e propósito de toda a criação. E no homem, também, o essencial não é o corpo, que é “pó da terra”, mas a alma, o espírito vivo que D’us “soprou em suas narinas”; uma alma que é “realmente parte do D’us acima”. Somente depois que o homem foi criado com a centelha Divina dentro dele, a criação inteira se tornou digna e completa. Assim, o homem pode ser corretamente descrito como o “início” da criação em todos os âmbitos, e Rosh Hashaná, o nascimento do homem, como “o dia do início de Tuas obras”.

O poder do justo
Porém logo depois da criação a narrativa bíblica prossegue com a tentação do fruto proibido, o pecado de Adam e o subseqüente exílio do Jardim do Éden. A serpente, sinônimo da má inclinação, persuade o homem a desconsiderar a missão de sua alma em troca do prazer momentâneo. Adam precipita a humanidade num conflito constante entre sua má e sua boa inclinação.
Os Sábios descrevem o que aconteceu da seguinte maneira: Na época da criação a Shechiná – a Divina Presença – repousava na terra. Após o pecado de Adam, a Shechiná se afastou da terra para o primeiro firmamento (os Sábios falam da existência de sete firmamentos, i.e., níveis espirituais), e depois dos pecados de Caim e Abel, e a geração subseqüente de Enosh, a Shechiná se removeu ainda mais, para o segundo e terceiro firmamentos, até que a Shechiná fo removida, por meio dos pecados das gerações seguintes, ao sétimo firmamento.
Foi o justo Avraham que, através do seu serviço Divino, fez a Shechiná retornar a um nível, o sexto firmamento. Seu filho Yitschac e seu neto Yaacov, e em seguida gerações subseqüentes de pessoas justas, devolveram ainda mais a Shechiná, até que Moshê, a sétima geração a partir de Avraham, fez voltar a Divina Presença a esta terra, quando ele construiu o Tabernáculo no deserto e a Shechiná repousou ali.
Um dos grandes ensinamentos do Báal Shem Tov, o fundador do Movimento Chassídico, é sobre o contínuo processo da criação. A energia criativa Divina está constantemente pulsando na criação, fazendo-a existir ex-nihilo a cada segundo. Se D’us parasse de criar o mundo, mesmo que por um instante, tudo se reverteria ao nada e ao vazio, como antes da criação. Quando os Sábios falam sobre a “remoção da Divina Presença”, não estão sugerindo que D’us literalmente Se removeu do mundo – pois aí o mundo deixaria de existir. Ao contrário, eles estão sugerindo que o pecado cria uma insensibilidade para com a Divina Presença. A Divindade não é mais manifesta e sentida pela criação. É quase como se D’us estivesse exilado do Seu mundo. Este foi o resultado de gerações de pecado, e foi somente pelos esforços dos justos que o mundo ficou novamente sensível à Divina Presença e tornou-se uma morada adequada para Sua presença.

Uma morada para D’us
Foi Avraham quem iniciou o processo de retorno, trazendo a Presença Divina do sétimo para o sexto firmamento. Ele conseguiu isso estabelecendo uma casa de hóspedes em Beer Sheba e servindo comida e água aos viajantes. Depois que eles comiam, Avraham lhes pedia para dar Graças. A Torá nos relata: “E Avraham chamava o nome de D’us.” Os Sábios comentam ‘não lê’, “e ele chamou’, mas leu, ‘e ele fez chamar’’, i.e., ele encorajou outros a chamarem. Maimônides declara que Avraham tinha tamanha influência em seu tempo que conseguiu converter boa parte da civilização conhecida a acreditar no monoteísmo.
Esta tarefa foi continuada por seus filhos, e as tradições patriarcais e crença no monoteísmo foram continuadas e mantidas mesmo depois da descida de Yaacov ao Egito e a subseqüente escravidão e cativeiro. Embora impregnados e assimilados pela cultura egípcia, os Filhos de Israel, em particular a tribo de Levi, manteve sua identidade e suas crenças.
D’us tinha prometido a Avraham que seus descendentes serviriam uma nação estrangeira somente por um determinado tempo, após o qual seriam redimidos. Quando chegou o tempo da redenção D’us enviou Moshê, bisneto de Levi, filho de Yaacov, para cumprir aquela tarefa. O faraó, um deus auto-proclamado, foi sistematicamente destruído pelas Dez Pragas. Ele e seus mágicos foram forçados a admitirem que o “dedo de D’us” estava em ação. Finalmente o povo judeu deixou o Egito, uma redenção do cativeiro que se tornou o protótipo para todas as futuras redenções.
Eles testemunharam mais milagres – a abertura do mar e a derrota dos amalequitas. Quarenta e nove dias após deixarem o Egito, ele ficaram ao pé do Monte Sinai onde ouviram os Dez Mandamentos do próprio D’us.
D’us lhe deu Sua Torá-instrução para toda a nação. Logo depois do Sinai, Ele instruiu Moshê: “Façam para Mim um santuário, para que Eu possa habitar no meio deles.”
Moshê iniciou a construção do Mishcan – o Tabernáculo – uma estrutura portátil que abrigava a Arca Sagrada, que continha as Tábuas de pedra e o Rolo da Lei. O Tabernáculo seria o protótipo para todas as futuras sinagogas. Quando finalmente ficou completado, a Presença Divina ali repousava. Os Sábios nos dizem que a tarefa estava completa, e a Divina Presença agora tinha voltado ao mundo.
A construção do Tabernáculo exemplifica o propósito da criação que, nas palavras do Midrash, é que “D’us desejava ter uma morada nos mundos inferiores”. O propósito do homem é tomar a criação e permeá-la com Divindade.
Esta idéia foi exemplificada no Tabernáculo. Quando os judeus deixaram o Egito, levaram consigo grandes riquezas, que depois doaram para os materiais necessários para a construção do Tabernáculo. Todo aspecto dos reinos mineral, vegetal e animal foi representado no Tabernáculo. As paredes eram feitas de painéis de madeira revestidos de ouro. As oferendas levadas ao Tabernáculo representavam a elevação da dimensão animalesca dentro do homem e sua dedicação a um propósito mais elevado. Todo aspecto do Tabernáculo transformava o material em espiritual. Assim o Tabernáculo, que nossos Sábios dizem que era um microcosmo, ou símbolo, do universo, refletia nossa própria tarefa no mundo; ou seja, pegar o material e transformá-lo e elevá-lo para um propósito espiritual. Por exemplo, comer para ficar saudável para estudar Torá e cumprir as mitsvot, usar couro animal para as mezuzot e tefilin e outros semelhantes.

Uma morada dentro de cada pessoa
Na frase: “Façam para Mim um santuário, para que Eu possa habitar entre eles”, há um significado mais profundo. Gramaticalmente, deveria ter declarado “para que Eu possa habitar nele”, porém declara “para que Eu possa habitar entre eles.” Os Sábios enfatizam que a construção do Tabernáculo é uma sugestão para cada pessoa construir uma habitação para a Divina Presença dentro de si mesma.
Como foi mencionado anteriormente, toda pessoa recebe uma alma Divina. É tarefa da alma fazer um Mishcan do corpo no qual ela reside, elevando todas as funções corporais a um Divino propósito.
Em resumo, isso significa poder conectar toda função corporal a D’us – e este é exatamente o propósito da Torá e mitsvot. Na Torá, D’us nos instrui sobre como conectar toda esfera de operação e função com D’us. Por exemplo, em termos de tempo, “seus dias trabalhareis e o sétimo descansareis.” A função do Shabat é permitir que a pessoa se afaste do mundano e se concentre no espiritual durante um dia por semana. Isso, por sua vez, cria uma nova perspectiva na semana vindoura. Pelo simples fato de dedicar um dia por semana ao estudo e à prece, a pessoa eleva a semana inteira.
As leis da cashrut conectam um judeu em seus hábitos alimentares, e as leis de Taharat Hamishpachá elevam a intimidade. E assim com todas as mitsvot.
Os Sábios nos dizem que um ser humano é feito de 248 membros e 365 tendões. Estes correspondem aos 248 mandamentos positivos e aos 365 mandamentos negativos da Torá. A palavra mitsvá em aramaico significa “uma conexão”. Assim, há 613 maneiras de se conectar com D’us. O homem tem a capacidade de conectar todo seu ser com D’us. Ao realizar esta tarefa ele cria uma morada para D’us neste mundo, assim cumprindo o propósito da criação.
Os mundos do espiritual e do material não estão em conflito. O supremo objetivo é que se fundam e o material se mescle ao espiritual, O âmago de do cumprimento de todas as mitsvot é tomar a criação material e utilizá-la para um propósito Divino. Isto proporciona uma harmonia maravilhosa tanto no indivíduo quanto no mundo em geral. Este tema não é relegado à sinagoga ou aos momentos de prática religiosa. Ao contrário, abrange todos os tempos e lugares; onde quer que esteja e toda vez que uma pessoa age, pode utilizar a tarefa à mão para seu propósito correto, o Divino.

As recompensas do Mundo Vindouro
O Talmud está repleto de referências ao Mundo Vindouro. Maimônides o descreve como “um mundo de almas’, um plano espiritual aonde a alma retorna após sua estada neste mundo. A alma faz um balanço de sua vida e, em seguida, seus méritos e deméritos são cuidadosamente pesados nas balanças Divinas. Ele é então recompensado pelas boas ações e pelo estudo de Torá. A recompensa toma a forma de uma revelação da glória de D’us, “banhar-se na Divina luz”. Talvez seja necessário que a alma se purifique de sus indulgências e iniqüidades, sendo enviada ao Gehinom, um local para purificação espiritual, após o qual ascende ao céu. O Talmud usa os termos “Jardim do Éden” ou :Academia Celestial” para descrever diversos níveis e estágios da recompensa celestial.
Nesse sentido este mundo é um mero “corredor antes do Mundo Vindouro”, um degrau temporário onde se pode ganhar um lugar e um assento no Mundo Vindouro. Na verdade os Sábios declaram que “melhor uma hora de felicidade celestial no Mundo Vindouro que todos os prazeres deste mundo” (Avot 4:17). Não se deve servir a D’us apenas para receber esta recompensa, porém D’us não permanece em débito, e recompensará a pessoa por todas as suas boas ações. Com esta finalidade há um “olho observando, um ouvido escutando e uma mão anotando” todas as ações de uma pessoa neste mundo. É mantida uma contabilidade exata.
Porém, por maiores que sejam as recompensas do Mundo Vindouro, elas não são o supremo propósito da criação. Como foi declarado acima, o supremo propósito é que D’us desejava ter uma morada nos mundos inferiores, neste mundo material e físico. É nesse sentido que os Sábios declaram que “melhor uma hora de arrependimento e boas ações neste mundo que todo o Mundo Vindouro”. Embora as revelações dos mundos espirituais mais elevados sejam magníficas e uma verdadeira recompensa para os esforços da alma, o supremo desejo de D’us, no entanto, são as boas ações e as mitsvot deste mundo.
É por este motivo que não há uma menção declarada do Mundo Vindouro nas Escrituras. A Torá está preocupada primeiramente com a vida neste mundo. A alma existe antes de sua descida, e retorna ao âmbito celestial após a vida. É uma “descida com o propósito da subida”, sendo que a subida é o cumprimento do supremo propósito da criação, a criação de uma morada para D’us neste mundo.
O Rei Shelomô descreve a alma como “a lamparina de D’us”. Para que D’us precisa de uma lamparina? Existe algum lugar que seja escuro perante Ele? A vela é necessária para este mundo, no qual D’us revestiu Sua majestade. A alma ilumina o corpo e o mundo, permitindo-lhe reconhecer o Criador, por meio do cumprimento da Torá e mitsvot na vida diária.
Rabi Shneur Zalman de Liadi, fundador de Chabad, costumava dizer: “Eu não desejo Teu Jardim do Éden, eu não quero Teu Mundo Vindouro, quero apenas a Ti, a Ti Mesmo.” Ele queria dizer que, embora a felicidade espiritual do Mundo Vindouro seja grande, D’us, Ele Mesmo, é sentido apenas ao se cumprir o supremo propósito – com uma hora de arrependimento e boas ações neste mundo.

Um propósito específico
Além disso, toda alma tem um propósito específico além do objetivo geral de fazer uma morada para D’us neste mundo. O Báal Shem Tov dizia que uma alma, além de cumprir a Torá e mitsvot, pode descer a este mundo e viver durante 70 ou 80 anos apenas para fazer um favor no âmbito material ou no espiritual. Como alguém sabe o seu propósito específico? Como a pessoa sabe qual favor é o propósito para a descida de sua alma? A resposta é que tudo acontece pela Divina Providência, e se uma pessoa se vê frente a uma determinada oportunidade, certamente esta foi enviada pelo Alto, e deve ser tratada como se fosse o objetivo para a descida da própria alma.
Nossos Sábios declararam “tudo vem das mãos do céu, exceto o temor ao Céu”. Isso significa que tudo que acontece a uma pessoa vem do Céu. O tempo e local específicos em que uma pessoa vive e sua posição na vida, se é rica ou pobre, etc., são decididos Acima. A única contribuição da pessoa é “o temor do Céu” – sua reação numa determinada situação. Todos encaramos oportunidades únicas e desafios, e cabe a nós utilizá-los para o propósito Divino.

A descida da alma
Nossos Sábios declararam ainda que “toda e cada alma esteve na presença da Sua Divina Majestade antes de descer a esta terra”, e que “as almas são tiradas de sob o Trono da Glória.” Estes ditos enfatizam a natureza essencial da alma, sua santidade e pureza, e como ela está completamente separada de qualquer coisa material e física; a alma em si, por sua própria natureza, não está sujeita a quaisquer desejos materiais ou tentações, que surgem apenas no corpo físico e na “alma animalesca”.
Mesmo assim, foi a vontade do Criador que a alma – que é realmente uma “parte” do Divino, deveria descer ao mundo físico e grosseiro, e ficasse confinada, e unida, com um corpo físico por alguns anos num estado diametralmente oposto à sua natureza espiritual. Tudo isso com a finalidade de uma Divina missão que a alma tem de desempenhar para purificar e espiritualizar o corpo físico e seu ambiente físico a ela relacionado, fazendo deste mundo uma morada para a Divina Presença. Isso somente pode ser feito por meio de uma vida de Torá e mitsvot. Quando a alma cumpre sua missão, toda a dor e sofrimento transitórios conectados com a descida da alma e a vida nesta terra são não apenas justificados, mas também superados, pela grande recompensa e felicidade eterna que a alma desfruta depois.

Uma oportunidade desperdiçada
Pelo exposto acima pode-se avaliar a extensão da tragédia de desconsiderar a missão da alma na terra. Pois, ao fazê-lo, faz-se com que a descida da alma a este mundo tenha sido em vão, pois não atingiu o seu propósito. Mesmo quando há breves momentos de atividade religiosa no estudo de Torá e no cumprimento de mitsvot, é triste contemplar com que freqüência esta atividade é manchada pela falta de verdadeiro entusiasmo e júbilo interior, sem o reconhecimento de que estas são as atividades que justificam a existência.
Além de perder o ponto vital pela falha em aproveitar a oportunidade de cumprir a vontade de D’us, assim merecendo os eternos benefícios que advêm disso, é contrário à razão escolher aquele lado da vida que acentua a escravidão e decadência da alma ao mesmo tempo em que rejeita o bem intrínseco; ou seja, a grande elevação que resulta da descida da alma.
A atitude certa é aproveitar ao máximo a permanência da alma na terra, e uma vida permeada pela Torá e mitsvot torna isso possível.
Está claro também que como D’us, que é a essência da bondade, força a alma a descer de suas alturas sublimes para as profundezas com o propósito de estudar Torá e cumprir as mitsvot, isso deve significar que o valor da Torá e mitsvot é muito elevado.
Além disso, a descida da alma com o propósito de ser elevada demonstra que não há outra maneira de obter este objetivo, exceto por meio da descida da alma para viver nesta terra. Se houvesse uma maneira mais fácil, D’us não obrigaria a alma a descer a este mundo inferior. Pois somente aqui, naquilo que os cabalistas chamam de mundo inferior, a alma pode atingir seu nível mais elevado, mais elevado até que o dos anjos e, como dizem nossos Sábios: “Os justos são superiores aos primeiros anjos”.

Servir a D’us com júbilo
Refletindo sobre a grandeza da Torá e das mitsvot, especificamente no que diz respeito a esta vida, refletindo também que a Torá e mitsvot são o único meio de se conseguir a perfeição da alma e o cumprimento do Divino propósito; a pessoa terá uma sensação de verdadeira alegria quanto ao próprio fado e destino, apesar das muitas dificuldades e obstáculos, internos e externos, que são inevitáveis nesta terra. Somente dessa maneira pode-se corresponder à ordem “Serve a D’us com júbilo”, a qual o Báal Shem Tov fez uma das fundações de seus ensinamentos, que é explanada em profundidade nos ensinamentos de Chabad e enfatizada por Rabi Shneur Zalman de Liadi em sua obra monumental, o Tanya (cap. 26, 31).
Em última análise, trilhar este caminho na vida levará à verdadeira felicidade. Felicidade – no sentido judaico – pode ser definida assim: quando alguém está fazendo aquilo que D’us deseja dele naquele dado momento, então ele pode ser realmente feliz. Portanto, se em qualquer dado momento ou situação, um indivíduo age de acordo com as diretivas da Torá-instrução, ele é realmente uma pessoa feliz e abençoada. Esta sensação transcende todos os assuntos mundanos, pois esta pessoa entende que tudo que acontece na vida é orquestrado por D’us.

Conclusão
Obviamente é necessário estudar Torá e ter consciência de como cumprir suas diretivas na vida diária. A Torá é a sabedoria Divina, e não há união maior com D’us que pela unidade intelectual do estudo. Porém, “a ação é o principal”. O supremo propósito do estudo é levar à ação – ao cumprimento das mitsvot – no sentido de cumprir o propósito da criação, de fazer uma morada para D’us neste mundo.
Toda e cada mitsvá tem um efeito cósmico e revela a presença de D’us. A revelação total deste efeito será aparente quando Mashiach vier. Naquela era, toda a busca do homem será conhecer a D’us.
Jerusalém, a capital espiritual do mundo é formada de duas palavras hebraicas, yirah e shalem, que significam “perfeita reverência”. A reconstrução de Jerusalém denota a reconstrução no mundo daquele estado perfeito de reverência e a presença total de D’us, que foi encontrada no jardim do Éden. Cada mitsvá individual é um passo no sentido de cumprir aquela meta.
Seria bom para nós darmos atenção ao conselho do Rei Shelomô, o mais sábio de todos os homens, quando escreveu ao final do Livro de Cohêlet: “Em última análise, tudo se sabe; teme a D’us, e observa Seus mandamentos; pois este é todo o propósito do homem.” Nas palavras de nossos Sábios, “Eu fui criado com o único propósito de servir ao meu Criador."

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Joel Ramos Mota Brasil 22 Setembro, 2015

Uma das reflexões mais completas sobre D'us e os homens. Reply