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A Essência da Dignidade Humana

A Essência da Dignidade Humana

Quando você está entediado com a vida

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Ignorância e Apatia

Qual a diferença entre ignorância e apatia, perguntou um homem ao seu amigo.
– Não sei e não me importa, foi a resposta.

Palestra à Meia-Noite

Um judeu está correndo por uma estrada à 1h da madrugada. Um policial o para e pergunta: “Para onde está correndo a uma hora dessas?”
“Vou para uma palestra,” responde o homem.
“Quem lhe fará uma palestra a essa hora?” pergunta o policial.
“Minha mulher,” responde o homem.

A Ânfora de Azeite

Esta semana, judeus no mundo inteiro lerão uma história bíblica sobre uma viúva empobrecida e um bondoso profeta, descrita no Livro dos Reis1. “Uma mulher, a esposa de um dos profetas, clamou a Elisha: ‘Meu marido, teu servo, morreu, e você sabe que seu servo era temente a D’us – agora o credor veio para levar meus dois filhos como escravos'2. “Elisha disse a ela: ‘O que posso fazer por você? Diga-me, o que tem em sua casa?’

“Ela respondeu: ‘Sua serva nada tem em casa, exceto uma ânfora de azeite.’ “Ele disse: ‘Vá e peça ânforas emprestadas de todos os seus vizinhos; e vasilhas vazias: veja que não sejam poucas.

“Então vá e feche a porta atrás de você e atrás dos seus filhos; derrame em todas aquelas vasilhas e retire cada uma que estiver cheia.’”

A mulher obedeceu. “Eles levaram para ela e ela derramou. Quando todas as vasilhas estavam cheias, ela disse ao filho: ‘Traga-me mais uma vasilha.’ Ele disse a ela: ‘Não há mais vasilhas.’ E o azeite parou.

‘Ela foi e disse ao homem de D’us (Elisha), e ele disse: ‘Vá vender o azeite e pague seus credores, e você e seus filhos viverão com o que restar.”

Qual é a Relevância?

Aparentemente, esta é uma história sobre um profeta compassivo desejando ajudar uma viúva pobre e destituída que perdera o marido e estava a ponto de perder os filhos. O profeta realiza um milagre, fazendo o azeite fluir sem cessar, e salvando a vida da mulher e sua família.

Porém, um axioma básico da tradição judaica é que o verdadeiro significado da Torá não está nas histórias que registra ou nas figuras antigas que retrata, mas nas mensagens e personagens para nossa vida atual. A Torá – incluindo cada episódio, evento e lei ali transcritos – como seu nome indica (Torá significa ensinamentos) deve constituir um projeto para viver, um mapa espiritual para a complicada e dolorosa viagem de cada ser humano em nosso pequeno, mas confuso planeta3.

Mas como podemos pessoalmente entender essa história? A maioria de nós não é profeta ou fazedor de milagres. Embora na verdade seria bom ter um Elisha que pudesse assegurar nosso fluxo de azeite e nos poupar da dependência do Oriente Médio, este não é o caso no momento. Então, como pode este relato sobre uma viúva, um profeta e uma ânfora de azeite servir como uma fonte de inspiração e orientação em nossa vida contemporânea?

O Grito de um Jovem

Há duzentos anos, na primeira década do Século Dezenove, um jovem entrou na sala de um dos maiores pensadores judeus da época, Rabi Shneur Zalman de Liadi. A pergunta do jovem foi simples: “Sinto-me entorpecido, congelado e apático; minhas entranhas estão mortas. O que devo fazer?”

Rabi Shneur Zalman, um homem de profundo amor, extraordinária sabedoria e intensa espiritualidade, contou ao jovem abalado a história da viúva e do profeta, e demonstrou como essa antiga história bíblica continha uma resposta para a solidão do jovem.

Quero apresentar a vocês – em minhas próprias palavras – esta opinião de Rabi Shneur Zalman4.

Uma Alma Morta

A alma de um ser humano tem sido comparada a uma mulher – a esposa de D’us, por assim dizer5.

Por quê? Porque a alma representa a parte da nossa identidade que está num perpétuo relacionamento com D’us, descrito como “o marido”. Marido e mulher, mesmo quando têm problemas entre eles, ainda estão num relacionamento. Podem amar-se ou odiar-se, mas não podem ser indiferentes um com o outro. A alma é aquela parte do nosso ser que não pode ignorar D’us.

Mas então chega o dia em que a mulher grita por causa da morte do marido – a morte da sua centelha Divina. Ela volta-se ao profeta, representando D’us, e diz: “Meu marido, teu servo – o campo da Divina energia dentro de mim – morreu e você sabe que seu servo era temente a D’us.” O termo hebraico para “meu marido” (eishi) pode também ser traduzido como “meu fogo”. Este é o grito de muitos seres humanos: minha alma costumava ter uma chama, mas hoje está completamente extinta. Tornei-me apática a qualquer realidade mais profunda e espiritual da vida. Estou entorpecida, afastada e sem vida. D’us se tornou sem sentido para mim.

Se o Tédio é o desejo de ter desejos (como disse Tostoy em Ana Karenina), esta alma pode ser descrita como realmente entediada. Foi-se o senso de mistério, incerteza e a busca. “Eu prefiro morrer de exaustão que de tédio,” disse um sábio certa vez. A morte que vem do tédio e da apatia pode ser extremamente dolorosa.

Um Coração Escravizado

E ainda pior, clama a alma, “o credor veio para levar meus filhos como escravos.” Amor e reverência, proximidade e distância, afeição e disciplina, estas duas forças opostas foram intituladas em Chabad como os dois “filhos” de pais intelectuais. As emoções nascem e são modeladas pela percepção e cognição; a mente é o pai e o coração é o filho. As duas emoções básicas, ou filhos, são atração e rejeição, pois toda emoção existente é uma forma de atração ou uma forma de rejeição6.

Todo mundo experimenta atração e rejeição na vida. Todos amam e todos desprezam. Gravitamos e nos afastamos; amamos e tememos. A questão é: com quem e com o quê?

Você ama as pessoas ou anseia por fofoca? Ama a verdade, profundidade e justiça ou é viciado no temporário e transitório, na gratificação instantânea? Você é atraído pela sua alma ou pela superficialidade ou até pela promiscuidade? Todos temos medo. Mas do quê? De perder nossa dignidade humana ou de expor nosso verdadeiro eu?

Assim é o grito do ser humano entorpecido: minha alma está morta, e minhas emoções foram manipuladas e escravizadas. Não sou mais o dono do meu amor ou da minha reverência. Fui roubado deles; agora pertencem a forças fora de mim. “O credor chegou para levar meus dois filhos como escravos.”

De Onde Vem o Romance?

Um brado semelhante com frequência é ouvido por um casal em conflito no relacionamento. Talvez no decorrer dos anos vocês tenham partilhado momentos mágicos um com o outro, algumas vezes o céu concedeu graças à sua união, e o romance fluiu dos seus lábios como leite e mel. Vocês estavam loucamente apaixonados.

Mas agora, o relacionamento está sufocante. O amor acabou e a mágica se foi. Seu coração está vazio de quaisquer sentimentos e seu cônjuge deixa você esgotado. Num momento tão desagradável, você se volta para D’us, ou para um amigo, ou então um conselheiro matrimonial, e clama: Onde está o romance? Onde está a eletricidade? O que aconteceu com aquela parte de mim que explodia de amor pelo meu parceiro?

Um Coração Artificial

Um grito semelhante pode ser ouvido de um adulto emocionalmente aleijado. Você cresceu num ambiente defeituoso. Seu pai ou sua mãe (ou ambos) jamais pronunciaram as palavras que todo filho anseia ouvir e sentir, “Eu te amo”. Você jamais foi ensinado a sentir suas emoções e expressá-las de maneira apropriada. Agora, quando é a sua vez de construir relacionamentos com seus filhos, você se vê incapacitado de sentir e expressar emoções verdadeiras. Você está travado. Sente que possui um coração artificial e odeia isso.

A História Humana

“Elisha disse a ela: ‘O que posso fazer por você? – Diga-me, o que você tem em sua casa?’ Ela respondeu: “Sua serva nada tem em casa, exceto um ânfora de azeite.’”

A primeira e mais comovente reação Divina a uma alma empobrecida é: “O que posso fazer por você?” Na verdade, a resposta parece significar que eu realmente não posso ajudá-lo!

Por quê? Porque o drama da vida humana está exatamente no fato de ser a única história que não foi escrita por D’us. D’us pode inspirá-la, criar todas as circunstâncias que a cercam e até prevê-la, mas jamais pode escrevê-la7. A verdadeira questão, D’us está dizendo, não é “O que posso fazer por você?” mas sim “O que você tem em sua casa?” Você deve procurar dentro de si mesmo a resposta para sua crise. A resposta ao sofrimento humano deve, em última análise, vir do próprio ser humano.

“Nada tenho,” lamenta-se a mulher. “Não sobrou nada da minha alma. Estou espiritual e emocionalmente morta.”

Verdade? Se você estivesse realmente morta, por que estaria sentindo dor? Se não se importa, por que se importa com o fato de não se importar? A mulher qualifica assim sua declaração anterior. “Sim, tenho algo que restou em minha casa que não foi levado.” Uma ânfora de azeite8.

Quem É Você?

Qual é a singularidade do azeite? Quando você mistura azeite puro com qualquer outro líquido, o azeite permanece separado, jamais perdendo sua identidade no conglomerado dos outros líquidos9.

O azeite, portanto, representa o âmago da identidade humana – uma dimensão do ser que permanece puro e intocado por todas as experiências da vida10.

Você consegue fechar os olhos, respirar fundo, meditar por alguns instantes, e então descrever o seu âmago? Quando todas as camadas, incluindo as camadas subconscientes, são desnudadas, o que emerge?

O misticismo judaico nos dá quatro leis vitais para caracterizar o âmago humano (ou qualquer âmago), chamado “etzem” em hebraico: é indefinido, imutável, indivisível e não-experimental. A dimensão mais inata de uma vida humana não é definida por qualquer coisa ou por ninguém fora de si mesma. Não é um composto de forças distintas que se combinam para formar o produto final chamado homem. Em vez disso, é uma realidade ato-contida que é definida exclusivamente dentro e por si mesma.

Se você tentar descrever sua essência, captá-la em palavrras, sentimentos ou percepção – então não é mais o âmago. A única coisa que pode captar a essência é a própria essência. No momento em que você tenta “captá-la”, colocá-la numa “caixa” e transportá-la a um outro domínio, você perdeu seu âmago puro.

Este âmago inabalável – a essência da dignidade humana – é a “ânfora de azeite” que jamais pode ser tirada de você. É o que faz de você quem você é; não pode ser entendido, imitado ou manipulado por ninguém mais. Não pode ser manipulado nem mesmo por você.

Por que Estamos Em Terapia?

Talvez a causa principal para a profunda insegurança e falta de confiança que assolam inúmeras mulheres e homens hoje em dia seja sua falta de identificação com esta “ânfora de azeite” interior.

Muitos de nós passamos a acreditar que somos meramente um conglomerado de genes, compostos químicos e DNA. Porém o meu ser possui um âmago que seja unicamente meu? O Judaísmo ensina que no âmgo de todas as forças que governam nossa vida está uma minúscula mas intocável “ânfora de azeite”, que nos concede uma fonte inexaurível de singularidade.

Suas emoções podem ser fracas e sua alma pode estar morta, mas sua “ânfora de azeite” está sempre presente. Esta parte da sua vida que se coloca face a face com a essência de D’us – essência com essência – jamais morre. Pode fica enterrada durante décadas, mas nunca está morta.

Recipientes Vazios

Ora, o Profeta Elisha volta-se para a viúva e diz: “Vá pedir recipientes emprestados aos seus vizinhos; esvazie as vasilhas; veja que não sejam poucos. Então vá e feche a porta atrás de você e de seus filhos; despeje em todos aqueles recipientes e retire cada um quando estiver cheio.”

Recipientes vazios e emprestados servem como metáfora para ações sem inspiração, mecânicas, que são vazias de paixão e entusiasmo, ações que jamais podemos chamar de “nossas”, pois nosso coração e nossa alma não estão presentes nessas ações.

Aja, aja mais e mais ainda. Continue a realizar ações Divinas, morais e sagradas, muitos atos Divinos e bons, mesmo que para você pareçam emprestados e vazios.

Quanto ao casamento vazio – assegure-se de agir amorosamente, embora você possa sentir que seu cônjuge é um fardo. Preencha sua vida com milhares de recipientes vazios, com numerosos atos de “amor emprestado” no qual seu próprio coração não está presente. Maridos: saiam para comprar rosas, lavem a louça, ponham as crianças para dormir, ajudem a guardar as compras. A cada dia realizem atos de amor e bondade para com sua mulher.

Quanto a um pai de coração fechado tentando educar os filhos – aproxime-se de seus filhos, abrace-os e diga-lhes o quanto você os ama. Seu coração pode estar trancado e suas emoções abafadas – isso não importa. Queremos recipientes vazios. O máximo de recipientes vazios que pudermos conseguir.

E Daí? Você sabe o que acontece em seguida?

“Feche a porta atrás de você e de seus filhos,” diz Elisha. “Despeje em todos aqueles recipientes e remova cada um que estiver cheio.”

“Eles levaram para ela e ela despejou. Quando todos os recipientes estavam cheios ela disse ao filho: ‘Traga-me outra vasilha.’ Ele disse a ela: ‘Não há mais vasilhas.’ E o azeite parou.”

Muitas vezes na vida (pode ser uma vez por mês, a cada três meses, ou uma vez ao ano), nossa “ânfora de azeite” surge, mesmo que por alguns instantes fugazes. Se não houver “vasilhas” para encher, ela emerge mas então ‘retorna” ao seu esconderijo no âmago dos âmagos da identidade humana. Continuamos famintos pelo nosso âmago, mas não temos como acessá-lo novamente até que ele surja na próxima vez.

Porém se quando a essência de sua alma emerge, encontra “esperando” por ela centenas ou milhares de recipientes vazios, começará a fluir e fluir até que cada recipiente vazio esteja repleto com dignidade, profundidade e significado da essência Divina do espírito humano.

Rezar Quando Você Não Tem Vontade

Esta, então, foi a resposta de Rabi Shneur Zalman a um jovem, tentando levar uma vida judaica baseada nos princípios e orientações da Torá e suas mitsvot, e mesmo assim se sentindo indiferente e desmotivado.

Quem dentre nós não pode entender o dilema deste homem? Quantos de nós poderiam alegar que cada manhã ao acordarmos, estamos com vontade de colocar tefilin (filactérios), meditar sobre a alma e rezar a D’us durante uma hora? Quantas mitsvot em nossa vida diária se tornam um exercício em tédio e preguiça?

A certa altura a pessoa se pergunta: “Para quê? Se eu sentisse D’us, levar uma vida de Torá e mitsvot seria uma experiência incrível. Porém a maior parte do tempo não sinto D’us; minhas mitsvot são atos vazios, ocos!”

Porém, chegará um dia não muito distante, em que sua “ânfora de azeite” vai realmente emergir. Aqueles que com suor e labuta construíram “recipientes vazios” em sua vida, quando chegar seu momento da verdade, seus dias e noites ficarão repletos com a interminável profundidade e dignidade de seu âmago Divino.

Para muitos de nós, é impossível levar uma vida de perpétua vitalidade interior e inspiração; porém somos capazes de preencher nossa vida com recipientes vazios, com uma programação saturada de atos e experiências significativas. Quando chegar o momento e sua alma surgir de seu âmago interior, sua vitalidade e inspiração preencherão todos os recipientes vazios com vida.

NOTAS
1.
1) Reis 2 cap. 4.
2.
2) Segundo nossos Sábios, a viúva fora casada com o falecido profeta Obadiah que gastara todo seu dinheiro em azeite para as lamparinas que iluminavam as duas grutas que esconderam os 100 autênticos profetas judeus do perverso Rei Ahab e sua esposa ainda mais perversa, Jezebel. Esta história nos leva há cerca de 2720 anos, no ano judaico 3040 a partir da Criação, ou 720 AEC (cerca de 300 anos antes de o Primeiro Templo ser destruído).
3.
3) Este axioma fundamental sobre a Bíblia é lindamente explanado no Zohar, vol. 3 53b.
4.
4) Publicado em Maamarei Admur Hazalan Haktzarim págs. 136-138. Citado e explicado em Licutê Sichot vol. 5 págs. 332-335; Sefer Hammamrum Melukat vol. 4 págs. 43-50.
5.
5) Veja Maamarei Admur Hazakan ibid. Cf. Cântico dos Cânticos e muitos dos comentários ao livro. Rambam Hilchos Teshuvah cap. 10. Muitas ideias no Talmud, Midrash e Cabalá são baseadas nesta metáfora.
6.
6) Tanya cap. 3.
7.
7) Veja Hilchos Teshuva do Rambam, cap. 5.
8.
8) Isso explica por que a viúva primeiro declarou que não tinha nada, e depois disse que tudo que possuía era uma ânfora de azeite. Na mente da alma, ela nada tinha para chamar de seu. Porém seu próprio sofrimento por causa disso demonstra que a situação está longe de estar perdida (essa ideia, uma linda adição ao discurso de Rabi Shneur Zalman, foi apresentada pelo Rebe duurante uma palestra em 1964. Licutê Sichot vol. 5 ibid.).
9.
9) Veja Mishná Tevul Yom 2:5.
10.
10) Veja Sefer Hamaamarim Melukat vol. 6 pág. 72 e referências anotadas ali.
Por Yosef Y. Jacobson
Rabino Yosef Y. Jacobson é editor de Algemeiner.com, um site de notícias e comentários judaicos em inglês e yidish. Rabino Jacobson  também faz palestras sobre ensinamentos chassídicos, sendo muito popular e bastante procurado. É autor da série de fitas “Um Conto Sobre Duas Almas”.
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