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Meu Irmão Especial

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Anônimo

Desde muito jovem eu me lembro de ter desejado que eu pudesse acordar e que aquilo tudo teria sido apenas um sonho. Lembro-me de desejar que nada disso tivesse acontecido, que não era minha família que era diferente de todas as outras. Lembro-me de perguntar a D'us por que era eu que tinha um irmão com necessidades especiais, por que era eu que tinha recebido este fardo com o qual lidar.

Sempre me aborreceu o fato de que ninguém mais que eu conhecia tinha um irmão especial, portanto simplesmente eu nunca disse a ninguém que ele tinha necessidades especiais. Eu não precisava ver aqueles olhares críticos que partiam meu coração fazendo-me desejar que eles podiam pelo menos tentar entender. Entender que não precisávamos da piedade deles, precisávamos de seu amor.

Então um dia algo aconteceu. Algo que ficou para sempre gravado na minha memória. Eu tinha apenas oito anos na época, mas isso me afetou muito. Acordei numa manhã e meus pais e meu irmão não estavam. Minha irmã mais velha contou-me que meu irmão tinha ido para o hospital durante a noite com uma hemorragia grave. Ele tinha perdido muito sangue, demais, e estava numa condição crítica. O que aconteceu depois é uma lembrança imprecisa. Eles o mantiveram durante semanas no hospital. Ele não podia comer, o que resultou em perda excessiva de peso e ele teve de ser colocado numa sonda. Fiquei muito aborrecida e toda noite antes de ir para a cama eu implorava a D'us pelo meu irmão, rezando para que ele, D'us não o permita, não morresse.

Foi uma época terrível. Tenho uma vaga lembrança da minha mãe debruçada sobre o corpo rígido dele, e toda vez que penso nisso, sinto um tremor percorrendo minha espinha.

Então após um tempo que pareceu uma eternidade, ele começou a melhorar. Após semanas de recuperação, finalmente ele teve alta. Seremos para sempre gratos a D'us por levá-lo de volta para casa, mas eu não podia, não conseguia esquecer. A vida continuou, mas jamais esqueci a dor e o sofrimento que a minha família passou.

Passaram-se alguns anos e conviver com o comportamento dele tornou-se menos desafiante, mas ainda difícil… Não era fácil entender, que apesar de toda a sua doçura, ele jamais seria como as outras pessoas.

Tive de tolerar muitos comentários que magoavam; as pessoas olhavam para ele com medo, viravam os olhos ou simplesmente atravessavam a rua quando passávamos perto. Muitas crianças com necessidades especiais têm seu próprio mundinho, no qual ocasionalmente desaparecem, e às vezes me pergunto o que ele está pensando quando o vejo com o olhar perdido no vazio.

Você poderia perguntar como eu posso sequer pensar em considerar uma criança assim como um “fardo”, mas somente aqueles na minha situação conseguem entender por que me sinto assim. Mas um dia aquilo mudou. O dia em que parei de escutar a voz na minha cabeça, a voz que exigia saber por que eu tinha de ter aquele fardo, a voz que exigia justiça.

Justiça para quem, você poderia perguntar? Para ele? Para minha família? Comecei a levar minha mente de volta àqueles dias sombrios. Lembrei das incontáveis noites passadas no hospital. Lembrei das noites insones me preocupando com ele e quando eu ficava furiosa. Como D'us poderia ter deixado aquilo acontecer? Mas então outro pensamento me ocorreu. Entendi que foi D'us que o salvou também. Lembrei de quem tinha me dado essa “injustiça” – foi Ele. Ele que é misericordioso. Ele que nos ama. Ele que faz tudo para o nosso bem. Mas como isso poderia ser bom? Como o tremendo sofrimento e dor poderiam ser bondade?

Certa vez ouvi algo que realmente me ajudou a entender como esse “fardo” e todos os fardos na sua essência são bondade, como não podemos viver uma vida completa sem eles. Imagine que você tem um quebra-cabeças de um sol se pondo atrás de um oceano escuro. Algumas peças são totalmente pretas, outras são coloridas e brilhantes. Mas quando você as encaixa juntas e forma o quadro inteiro, percebe que sem aquelas peças escuras, negras, o quadro não teria sido completado. Essas peças escuras são aquilo que vemos como fardos na vida. Como pode haver o bem em algo que não parece ser imbuído de bondade?

Na essência, tudo que acontece em nossa vida é bondade. Não vemos o quadro inteiro, mas D'us vê. Precisei de muito tempo para finalmente aprender isso; passei por muito sofrimento e dor para apreciar plenamente aquilo que tenho.

Sei que sempre haverá pessoas que tornarão isso muito mais difícil para mim, pessoas que não sabem o que significa amor verdadeiro e pessoas duras e insensíveis para entender. Não é fácil ouvir pessoas que julgam sem pensar, não é fácil pensar que tudo que acontece é para o bem, e não é fácil ficar quieto quando você escuta alguém fazendo piadas sobre aquelas crianças especiais que não escolheram seu destino.

Mas quem disse que era fácil? Não é, e jamais será.

Aprendi muitas lições, mas até agora, essa foi a mais poderosa. Agora, quando lhe dou um beijo de boa noite e o escuto cantando a prece Shemá Yisrael na voz mais doce que já ouvi, lembro que não importa o que venha lá na frente, serei sempre grata pelo presente que eu não sabia que tinha.

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Eliane Mendonça Rio de Janeiro, Brasil via beitchabad.org.br 4 Junho, 2016

Meu irmão especial Parabéns pela coragem e pela sensibilidade de viver essa experiência e deixar D'us descortinar Seus propósitos em sua vida e por compartilha-lá de maneira tão singular.
Parabéns pela coragem de crescer, apesar desse exercício ser tão doloroso.
Parabéns por seguir em frente e por aproveitar as oportunidades que o viver te oferece. . Reply