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Fui Uma Criança de Rua na Ucrânia

Fui Uma Criança de Rua na Ucrânia

A história de uma menina que aprendeu a acreditar em si mesma

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Há apenas dez anos ela era uma menina vagando pelas ruas da Ucrânia, negligenciada, sozinha e desprezada. Ninguém acreditava nela, e seu futuro era sombrio. Aos 13 anos foi levada a Israel pela organização Chabad’s Children of Chernobyl, e sua vida mudou. Hoje está casada e tem três filhos. Canta e conta s história de sua vida a grupos de mulheres.

Essa é a história do êxodo pessoal de Anya Kabanovsky.

Dormindo atrás das cortinas

“Nasci em Kiev, Ucrânia. Era a única filha de pais que se separaram quando eu ainda era muito pequena. Minha mãe era cantora numa banda de sucesso, uma verdadeira artista, com tudo que está envolvido. Cresci numa casa que estava repleta de música durante o dia inteiro, e às vezes, quando mamãe saía para cantar à noite, eu ia com ela. Acostumei-me a passar bastante tempo com adultos, a ouvir muitos tipos de música e a dormir atrás das cortinas do palco. Enquanto todas as meninas do jardim de infância estavam interessadas em bonecas e vestidos cor de rosa, eu me preocupava com pensamentos profundos e minha rica vida interior. Talvez fosse por isso que eu não tinha amigas.

“Quando eu tinha sete anos, mamãe achava que eu era suficientemente grande e responsável para ser deixada sozinha quando ela saía para os shows. Eu era independente desde muito jovem, e quando completei nove anos, comecei a cozinhar para minha mãe e eu.

Minha Filha, Você é Judia

“Quando eu tinha cinco anos, mamãe surpreendeu-me dizendo que tinha me matriculado numa escola judaica. Quando perguntei por que, ela disse que somos judias, e que a escola judaica é considerada a melhor em Kiev. Fiquei empolgada. Não tinha amigas no jardim da infância mesmo, especialmente num jardim da infância que era considerado o melhor da cidade.

“Gostava de estudar na escola judaica. Antes de cada feriado aprendíamos sobre os temas da data, bem como canções e danças sobre a festa. Nós fazíamos apresentações para nossos pais. Mamãe e às vezes vovó iam ver-me, e eu ficava orgulhosa e feliz.

“Toda sexta-feira assávamos deliciosas chalot. Eu as levava para casa, e todos as apreciavam. Os conceitos judaicos que aprendíamos na escola nunca eram seguidos em casa, porém. Não começamos a cumprir as mitsvot do Shabat, mas eu estava descobrindo um mundo maravilhoso de mitsvot e tradições, e gostava muito daquilo.”

Tornando-me a mãe de mamãe

“Quando eu tinha quatro anos, mamãe caiu do quarto andar de nosso prédio. O dano que isso causou ao seu sistema nervoso se tornou aparente apenas anos mais tarde.

“Eu estava na terceira série quando ela foi diagnosticada com Mal de Parkinson e começou a mancar. Sua situação deteriorou-se rapidamente, e ela precisava de cuidados. Mamãe, a cantora de sucesso que tinha me trazido tanto orgulho, estava presa num corpo alquebrado.

“Seu estado físico afetava seu estado amocional. Ficou deprimida e quase parou de funcionar. Eu chegava em casa da escola e cuidava dela. Cozinhava e a alimentava, limpava a casa e fazia as compras. Morávamos no quarto andar de um prédio sem elevador, portanto mamãe raramente saía de casa. Eu era sua única conexão com o mundo exterior.

“À medida que sua situação piorava, a minha também. Eu não tinha um adulto estável no qual pudesse confiar. Eu não prestava atenção a tudo que mamãe dizia, e tornei-me uma criança sem limites. Ninguém ia às reuniões de pais e professores na escola, portanto eu não tinha medo do que pudessem dizer a meu respeito. Cabulava muitas aulas e vagava pelas ruas, o que era tão ruim quanto você possa imaginar.

“Nossa situação financeira era crítica. Não podíamos comprar sequer o básico, como óleo e sal; fazíamos apenas uma papa cozida em água. Às vezes eu comia aquilo três vezes ao dia. Durante o ano escolar, os professores tinham pena de mim e me deixavam ficar até as seis da tarde, para que eu ficasse fora das ruas e pudesse comer refeições nutritivas; mas durante as férias, mamãe e eu passávamos fome.

“Eu não tive um uniforme até que a associação de pais coletou dinheiro e comprou um para mim. Depois da escola, eu vestia as roupas velhas de minha avó. A situação destruiu minha autoimagem. As meninas da vizinhança zombavam de mim, e eu era repleta de autopiedade. No inverno, quando me perguntavam por que eu não tinha botas, eu dizia que era porque não estava frio, mas a verdade era que tanto meu corpo quanto minha alma estavam congelando.”

Filhos de Chernobyl

A escola de Anya abrigava o escritório da organização Crianças de Chernobyl. Esse projeto foi iniciado pelo Rebe em 1990, quatro anos após a explosão do reator nuclear em Chernobyl, quando ficou claro que a contaminação radioativa na área não estava diminuindo. O Rebe disse aos chassidim para removerem as crianças da Ucrânia e Bielorússia e levá-las para Israel, para afastá-las da zona de perigo. Essas crianças foram abrigadas num dormitório e receberam cuidados médicos, juntamente com uma educação judaica e muito amor.

Anya pediu ao funcionário para facilitar sua emigração para Israel. Sua mãe concordou imediatamente. Ela sabia que Anya precisava de alguém para cuidar dela, e se permanecesse na Ucrânia e continuasse a vagar pelas ruas, seu futuro seria sombrio. Anya prometeu às pessoas do projeto que colocaria um freio em si mesma; obedeceria as regras e se concentraria em sua educação. Anya deixou sua mãe sabendo que ela receberia alguns cuidados por parte de seu pai, que ainda mantinha uma conexão com a ex-esposa e podia prover-lhe as necessidades mais básicas.

Alguém se preocupa comigo?

“Cheguei a Kfar Chabad e comecei a estudar num ulpan (escola para o aprendizado de hebraico), que me preparou para entrar na oitava série. Assim que cheguei lá, compraram-me roupas e outras coisas que eu precisava. Eu gostava das refeições e da maneira que me tratavam. As pessoas estavam sempre me cumprimentando e perguntando como eu estava. Para mim, que não tinha recebido amor e passado sem as necessidades básicas da vida durante vários anos, foi um grande choque. Não conseguia digerir aquilo. Eu não podia acreditar que alguém se preocupasse comigo. Quando alguém perguntava ‘Como vai?’ eu respondia ‘O que te importa?’ Eu resistia a todos os limites e regras, e ficava furiosa o tempo todo, e odiava todo mundo.

“Para sair da escola, eu dizia que estava doente, com dor de cabeça ou de estômago. A equipe entendia, mas explicavam que em Israel você fica em casa somente dois dias por motivos de doença. Eu estava vindo da Ucrânia, onde uma criança com o nariz escorrendo podia permanecer em casa por duas semanas.

“A equipe me via como um desafio, e não desistiam de mim. Sempre diziam que acreditavam em mim, e me elogiavam por qualquer coisinha certa que eu fazia. Estabeleciam limites para meu comportamento, mas não punham limites em seus cuidados. Dentro de seis meses eu tinha mudado completamente. Comecei a acreditar que as pessoas me amavam como eu era, e ainda mais importante; comecei a acreditar em mim mesma. Eu queria mostrar à equipe que seu investimento em mim valia a pena. Eu queria me provar a mim mesma.”

Uma Visita à Ucrânia

“Às vezes eu telefonava para minha mãe. A doença de Parkinson tinha tornado dificil para ela conversar, mas ela me ouvia. Essas conversas não eram fáceis para mim, mas mesmo assim eu ligava.”

Após dois anos em Israel, Anya pediu para visitar a mãe. Ela queria retornar, bem vestida e bem arrumada, ao local onde tivera de usar as roupas que sua avó jogava fora. Mas a visita foi difícil. Ver como sua mãe vivia foi um choque profundo.

Durante sua visita, amigos a apresentaram, via Internet, a um judeu no Canadá chamado Ronen. Eles se correspondiam por e-mail e sentiram uma grande conexão. Quando ela voltou ao alojamento, disse à mãe da residência que tinha conhecido um homem. Era mais velho que ela, mas estava certa de que algum dia se casaria com ele. A mãe da casa entendeu que não conseguiria proibir o relacionamento, e apenas pediu a Anya que limitasse seu contato a telefonemas e cartas.

Enquanto Anya estivesse mais interessada em Torá e mitsvot, Ronen não estava, e sua conexão enfraqueceu.

“Ele tinha uma certa conexão ao Judaísmo. Carregava uma foto do Rebe - Rabi Menachem M. Schneerson, de abençoada memória - na carteira. Nascera doente e teve de ser conectado a um respirador quando bebê. Depois que sua mãe pediu e recebeu uma bênção do Rebe, sua situação melhorou imediatamente, e ele começou a respirar por si mesmo. Sua mãe disse-lhe para levar uma foto do Rebe aonde quer que fosse.”

Um dia, quando Ronen estava limpando sua carteira e pegou a foto do Rebe, decidiu descobrir um pouco sobre ele. Entrou num site Chabad, leu sobre o Rebe e ouviu um clip com ele cantando. A melodia o comoveu.

“O dia era Onze de Nissan, aniversário do Rebe,” diz Anya. “Pouco depois, Ronen me ligou para dizer que começaria a guardar oShabat e aprender sobre o Judaísmo com Rabi Zaltzman, emissário Chabad na comunidade russa em Toronto. Eu estava nas nuvens: minhas preces tinham sido atendidas!”

Algum tempo depois, Ronen e Anya se casaram.

“As pessoas de Filhos de Chernobyl me casaram como se eu fosse uma filha, provendo tudo, desde o vestido até o fotógrafo e o salão, e tudo que precisamos. Partilharam da minha alegria e me fizeram sentir como se eu merecesse o melhor. Meu marido pagou sua metade, e ajudou a pagar uma passagem para mamãe.”

Levando Mamãe a Israel

“Meu pai faleceu há um ano e meio. Comecei a pensar sobre a situação de minha mãe, e senti que podia cuidar dela. Levei-a para Israel. cuidei de toda a papelada, e agora ela vive na casa vizinha à nossa. Estou feliz por poder ajudar e cuidar dela, e por ela poder apreciar seus netos. Na Ucrânia, o estado recusou-se a ajudá-la. Eles não dão valor a uma vida humana. Aqui, ela recebe cuidados médicos, o que melhorou bastante sua qualidade de vida.”

Fazer Música e Cantar - Uma Missão e o Encerrar de um Círculo

Recentemente, Anya começou a cantar e contar sua história para mulheres.

“Desde pequena, eu sabia que desejava fazer música, mas não tinha chance de me expressar musicalmente. Ficava constrangida de cantar na frente de mamãe, que sendo uma perfeccionista me criticava. No dormitório tive muitas chances de mostrar minhas habilidades. Tivemos um recital ao final do primeiro ano em que estudei música. Participei e recebi muitos elogios.Recentemente decidi que queria fazer algo com música. Estou estudando voz, e através de competições musicais baseadas em histórias de vida, estou me tornando autoconfiante.

“Quando canto, sinto que o círculo está se fechando. Mas a música em si não é suficiente. Precisa de um valor agregado de ser usada para fortalecer os outros.”

Obrigada, D'us, por dar-me força
de ser corajosa, e não esquecer
que há luz no fim do túnel.
Quando chegar lá, descobrirei que é apenas o começo.

(Anya Kabanovsky)

Por Tzppy Koltenyuk
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Evanilda Luiza dos Santos Portugal Vitória, ES/Brasil 22 Março, 2017

Que coisa linda a historia de Anya. Fiquei comovida e confio mais ainda que D'us não se esquece dos seus filhos. Reply

Flavio Scussulin Vila Velha ES 29 Fevereiro, 2016

Lindo Relato Lindo Relato...B"H...a Historia de Anya me fortaleceu. Reply

Marcos Campos dos Goytacazes 15 Junho, 2015

Fiquei muito emocionando com esse relato de Anya. Que o Eterno possa sempre estar com ela. Reply